segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O Cinema x A Telenovela Brasileira






Não é de hoje que o cinema serve de fonte de inspiração para os mais diversos meios de cultura popular. Aqui no Brasil com as novelas não poderia ser diferente. A telenovela brasileira se consolidou como uma de nossas maiores e mais fortes marcas nacionais, um produto tão particular da nossa cultura que consegue alcançar o sucesso e a consagração em todos os cantos do mundo. A Escrava Isaura (Gilberto Braga, 1976), baseada no romance de Bernardo Guimarães, por exemplo, seguiu por muito tempo como a nossa novela mais vendida, sendo exportada para mais de 80 países e fez de Lucélia Santos uma estrela adorada internacionalmente. A mais recente e moderna Avenida Brasil (João Emanuel Carneiro, 2012) segue agora no primeiro lugar e já foi vendida para 125 países e dublada em 19 línguas, em média. 


Lucélia Santos e Edwin Luisi na clássica novela A Escrava Isaura, de 1976, que conquistou o mundo. A novela foi um dos lançamentos em DVD pela Globo Marcas




Atenta aos novos tempos, à realidade brasileira e muito inspirada no ritmo agitado das séries americanas (o plot central era idêntico à série Revenge), Avenida Brasil foi uma das poucas produções recentes que conseguiu parar o Brasil, e segue como a mais vendida no exterior, além de ter sido lançada em DVD. Da Cor do Pecado (2004), do mesmo autor, também é recorde de vendas nos países estrangeiros e já foi reprisada duas vezes no Vale a Pena Ver de Novo


Como grande entusiasta de cinema e de televisão que sou, resolvi fazer um post dedicado às inúmeras referências dos grandes clássicos do cinema presentes nas novelas brasileiras. Vejo muito as pessoas comentarem informalmente por aí, também em alguns cantos da internet ou até mesmo em alguns textos mais acadêmicos vez e outra, porém ainda acho que é um campo a ser mais explorado e pesquisado, ainda mais por admiradores tanto da Sétima Arte como do Audiovisual Brasileiro. 


É sempre muito divertido perceber os paralelos entre o cinema e a televisão, muito mais frequentes do que se pode imaginar. E mais do que apenas curiosidade, podemos chegar a muitas reflexões acerca das semelhanças e diferenças entre os dois meios de comunicação. Comparando exemplos de clássicos cinematográficos com algumas produções televisivas sucessos de audiência aqui no Brasil, é possível entender como e de que maneira a arte do melodrama é desenvolvida em cada um deles. Lembrando também que o recorrente uso de referências, homenagens e paródias de obras clássicas, dos mais variados meios, já é uma marca da arte e do entretenimento da contemporaneidade.


Aqui nesse texto tentei reunir o máximo de casos possível de inspiração cinematográfica nas telenovelas. Grande parte eu pude assistir, e outra parte de ver apenas trechos ou de muito pesquisar na Internet e em livros sobre o tema (recomendo muito os seguintes Almanaques: da TV Globo (organizado por Marcel Souto Maior, com fonte de pesquisa Memória Globo); da TV (organizado por Bia Braune & Rixa) e o da Telenovela Brasileira (de Mauro Alencar e Nilson Xavier, organizador do site Teledramaturgia que foi um dos meus lares da Internet desde sempre quanto o assunto é televisão). O Guia Ilustrado TV Globo (que ganhei numa promoção do Orkut há muitos anos, grito) também me ajudou. 



  
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Uma forma de conhecimento e reflexão, sim, mas acima de tudo esse post é feito mais por diversão, pois é sempre muito mágico, pelo menos para mim, quando dois meios que marcaram tanto a minha vida, como é o cinema, a maior paixão da minha vida, e a televisão, que apesar dos muitos pesares tem uma dramaturgia muito rica, marcou a minha história e com o tempo eu soube apreciar e hoje enxergar sob novas perspectivas. 


Antes de discorrer sobre as novelas em si, gostaria de fazer um breve panorama da teledramaturgia desde seu início.


Nos primórdios da TV, as novelas eram muito fantasiosas e bem fora da realidade contemporânea. Ainda no começo, as produções de entretenimento da TV se inspiravam muito no teatro, no rádio e na literatura. Na Globo sob direção da excêntrica Gloria Magadan, as histórias  eram geralmente inspiradas no gênero capa e espada, muito difundido no cinema por estrelas como Errol Flynn. As tramas de novelas como O Sheik de Agadir e Rosa Rebelde, se passavam em castelos e masmorras, tinham enredos mirabolantes, locações fictícias na Europa, na Arábia ou até no Japão, e muitas vezes não tinham nexo algum, mas foram conquistando o público cada vez mais ávido por entretenimento no conforto de sua casa. Foram surgindo os grandes ídolos da telinha que marcaram a história da TV brasileira. 


Baseada em Taras Bulba do escritor russo Nikolai Gógol, e no maior estilo de filmes das Arábias, O Sheik de Agadir fez muito sucesso. Entre múltiplos assassinatos cometidos por um serial killer chamado ''O Rato'', a história era sobre um triângulo entre um sheik (Henrique Martins, inspirado em Rudolph Valentino em O Sheik talvez?), uma bela jovem (Yoná Magalhães) e um oficial do Exército Francês (Amilton Fernandes)


Tarcísio e Glória na novela Rosa Rebelde, de 1969. Uma das últimas novelas de capa e espada da emissora, que perdia na audiência para a descolada Beto Rockfeller da Tupi



A Gata de Vison, por sua vez, só pela propaganda dá para ver que se inspirava nos filmes de gângster muito típicos da Warner Bros. nos anos 30 e 40 com Edward G. Robinson, James Cagney e Humphrey Bogart


Mas foi com Véu de Noiva em 1969 que Janete Clair, que tomaria o comando da dramaturgia da emissora, mudou o  rumo das novelas globais. Foi na marcha de Beto Rockfeller da TV Tupi, sucesso estrondoso, que as novelas passaram a se aproximar mais da realidade e da vida cotidiana. Sem mais castelos e terras distantes, o cenário agora era a cidade grande, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, e os personagens, mesmo que ainda estereotipados por vezes, estavam mais próximos das pessoas comuns, com cada vez menos idealismos. A trilha sonora agora passou a ser os grandes hits do momento, e não mais temas sinfônicos de orquestras. Com tramas mais realistas e ligadas na era contemporânea, a televisão foi descobrindo sua linguagem, a telenovela aos poucos se consolidou, e nessa jornada bebeu muito de uma arte que, mesmo mais antiga, ainda era recente e moderna: o cinema. 


Luiz Gustavo como o anti-herói Beto Rockfeller que conquistou o Brasil. 
O protagonista é dúbio: Beto é como ele é conhecido na sua vizinhança humilde, e Rockfeller é o nome do magnata americano que ele finge ser parente para penetrar nas altas rodas paulistanas. Eis Beto Rockfeller, dividido entre a vida simples do subúrbio e o frenesi da Rua Augusta! 



Cláudio Marzo e Regina Duarte em Véu de Noiva (1969) - ar de modernidade ao folhetim. No último capítulo, Daniel Filho chamou um juiz de verdade que iria, ao vivo, decidir se seria a personagem de Regina Duarte ou a de Myriam Pérsia que ficaria com a criança pela qual elas disputavam a guarda. Regina venceu.


Em Pecado Capital de 1975, a Lucinha de Betty Faria (uma das várias mulheres fortes de Janete Clair) quebrava com o estereótipo de mocinha que precisava de um homem, se mostrando muito independente e cheia de personalidade 


O Casarão (Lauro César Muniz, 1976) veio com ares de revolução ao mostrar três épocas diferentes ao mesmo tempo. Abordando temas complexos, a evolução do comportamento e a decadência das oligarquias cafeeiras paulistas, foi uma produção pomposa num estilo E O Vento Levou... brasileiro. O romance entre os personagens de Paulo José e Renata Sorrah, na novela uma mulher casada, sofreu ação da Censura


  
O final de Roque Santeiro em 1985, fenômeno imbatível da TV brasileira assinado por Dias Gomes, foi clara homenagem ao final de Casablanca, quando Ingrid Bergman e Humphrey Bogart se despedem perto do avião que ela vai tomar sem ele - eles sempre terão Paris. Com um avião prestes a decolar, fica a dúvida se a Viúva Porcina (Regina) vai com Roque (Wilker) ou se fica com Sinhozinho Malta (Lima Duarte). Por fim, no final exibido, ela fica com Sinhozinho Malta e Roque Santeiro voa para longe



As referências de cinema não são apenas nas novelas. As minisséries também estão cheias delas, em especial as de época. Anos Dourados (Gilberto Braga, 1986) mostrava os jovens dos anos 50 indo ver filmes como Suplício de Uma Saudade, Juventude Transviada e Férias de Amor; e esse último lembrava um pouco a história do casal principal Lurdinha e Marcos (Malu Mader e Felipe Camargo). Os dois descobrem o amor e o sexo, e o romance deles é mal visto pela sociedade conservadora da época, representada pelos rígidos pais da garota. Anos Rebeldes, passada nos anos 60, citava diversos filmes da época, em especial cinema europeu e os célebres da Nouvelle Vague. Já por exemplo Agosto, Sampa e Boca do Lixo se espelhavam em clássicos do cinema Noir de filmes como de Billy Wilder, John Huston e Howard Hawks


A abertura da polêmica O Dono do Mundo (Gilberto Braga, 1991) tinha a cena icônica de Chaplin brincando com o globo terrestre tirada de seu filme O Grande Ditador (1940), que genialmente satirizava o nazista Hitler em plena Segunda Guerra Mundial. Na abertura, utilizaram imagens de várias mulheres sobrepostas ao globo, pois na novela, o vilão de Fagundes, ''o dono do mundo'', manipulava todos à sua volta, em especial as mulheres como a sua vítima principal, a mocinha vivida por Malu Mader. O uso das imagens do filme para a novela custou uns bons dólares para a emissora

  
Anos depois, em 1991, Vamp (de Antonio Calmon) tinha referências das mais variadas, como A Noviça Rebelde, Thelma e Louise, Não Somos Anjos, Os Garotos Perdidos, Os Seus Os Meus e Os Nossos, entre outros. O nome do personagem de Ney Latorraca, Conde Vlad Polanski, era clara referência ao cineasta Roman Polanski, que dirigiu A Dança dos Vampiros em 1967 (pôster acima à direita). Exemplos mais óbvios como Nosferatu e Drácula provavelmente inspiraram a trama.








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Voltada ao público infantil, Era Uma Vez... (Walther Negrão, 1998) se inspirava em clássicos infantis como Pinóquio, O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, Victor Fleming, 1939) e principalmente em A Noviça Rebelde (The Sound of Music, Robert Wise, 1965) pela história central de uma 'forasteira' (Drica Moraes) que chega para alegrar a vida de um pai viúvo (Herson Capri) e seus quatro filhos - e bater de frente com a ardilosa noiva dele (Andréa Beltrão)



  

Inspirada na Marguerite Gautier de A Dama das Camélias, já vivida por Garbo no cinema, a cortesã Ester de Malu Mader em Força de um Desejo tinha figurinos inspirados em Sissi, a princesa austríaca imortalizada nas telas por Romy Schneider. O filme de Garbo (Camille, George Cukor, 1936) muito inspirou a produção de arte da novela. 




O cabelo de Cássia Kiss em Eterna Magia (Elizabeth Jhin, 2007) era baseado no look de Meryl Streep em O Diabo Veste Prada (David Frankel, 2006)


PIGMALIÃO 70 (Vicente Sesso, 1970) x MY FAIR LADY (George Cukor, 1964)


  



A peça Pigmalião, comédia de George Bernard Shaw, promoveu diversas adaptações de sucesso ao longo do tempo no teatro, no cinema e até na televisão. Na história de Shaw, um professor de fonética tenta fazer de uma humilde vendedora de flores uma dama da sociedade. Já vimos isso no mágico musical dirigido por George Cukor com Audrey Hepburn como a vendedora Eliza Doolitlle e Rex Harrison como o arrogante professor Henry Higgins. No início o professor apenas aceitou o desafio de transformá-la numa dama por uma aposta, mas ele se apaixona pela moça. O mote da peça vem do mito de um escultor chamado Pigmalião que se apaixonara pela escultura da mulher ideal que ele tinha feito, chamada Galatea. A deusa Afrodite atende ao pedido de Pigmalião e dá vida à Galatea. Audrey dá vida com muita graça à Eliza, num papel que já foi de Julie Andrews na Broadway.

''The rain in Spain stays mainly in the plain!''


''How kind of you to let me come!''

E a moça se transforma numa dama, mas Higgins percebe que criou um ''Frankenstein''. Longe de ser um monstro, ela criou vida própria e resolve seguir um caminho longe do prepotente professor. Na peça original, Eliza e Higgins não ficam juntos. Na adaptação de 1938, com Leslie Howard e Wendy Hiller, o final foi fiel ao texto original. Mas no filme de Cukor, atendendo ao apelo das plateias, no fim dá a entender que Eliza e Higgins terminam juntos. 

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Filme inglês de 1938



Em 1962, foi realizada uma montagem brasileira do musical da Broadway com muito sucesso aqui no Brasil. Ganhou o título de Minha Querida Lady e teve Bibi Ferreira e Paulo Autran nos papéis principais. Na Broadway, o espetáculo original contava com Rex Harrison e Julie Andrews 


Na novela setentista, fizeram uma inversão de papéis irresistível: é agora uma moça rica  vivida por Tônia Carrero que tenta fazer de um simples feirante vivido por Sérgio Cardoso um homem da aristocracia. Eles se conhecem depois que ele bate no carro da viúva milionária, que é dona de um salão. O moço é simplório, vende frutas e é casado com uma mulher simples. A milionária aceita uma aposta para transformar a vida do homem, mas ela no fim se apaixona por ele. 



Dona de um salão na novela, o corte de cabelo de Tonia virou moda e ficou conhecido como ''corte Pigmalião''. 


Mais recentemente, em 2015, foi feita uma novela inspirada em My Fair Lady chamada Totalmente Demais, estrelada por Juliana Paes, Fábio Assunção e Marina Ruy Barbosa como a ''Eliza'' (até o nome é o mesmo) que seria transformada numa modela de sucesso da noite para o dia. Os autores definiram a novela como uma mistura de Pigmalião 70 com Top Model

Top Model foi o maior sucesso da Globo no horário das 19h, especialmente entre o público jovem. Teve o mundo das passarelas, das praias e o universo adolescente como pano de fundo. Malu Mader vivia uma moça de origem humilde que conseguia se transformar numa modelo de sucesso


SELVA DE PEDRA (Janete Clair, 1972) x UM LUGAR AO SOL (A Place in the Sun, 1951)


  


Janete Clair se consolidaria como a rainha do folhetim e dona do horário nobre da Globo. Sua estreia na emissora em 1967 foi turbulenta, quando assumiu o comando de Anastácia, A Mulher Sem Destino e provocou logo um terremoto que matou metade dos personagens para tentar salvar a novela. Além das mencionadas aqui, Janete marcou época com tramas como O Astro (1977) e Pai Herói (1979). 


  
Anastácia, baseada num folhetim francês e com a rainha Leila Diniz protagonista, era também inspirada na história da grã-duquesa Anastásia que teria supostamente sobrevivido ao massacre dos Romanov. O que já havia inspirado filme com Ingrid Bergman e muito depois uma adorável animação da Fox. Claro, tudo com enfoques diferentes.


Desde então escreveu uma novela atrás da outra e conquistou sucessos estrondosos. A autora, como vários colegas, também nunca escondia suas inspirações cinematográficas e literárias. 


Janete Clair, a rainha das oito, apelidada por Drummond de ''usineira de sonhos''


Em Irmãos Coragem, por exemplo, a trama foi bem rasamente inspirada em Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, e em Mãe Coragem, de Brecht. Com um clima meio de faroeste, a trama bebia da fonte dos clássicos filmes americanos western. E a personagem de Glória Menezes que tinha três personalidades, Lara/Diana/Márcia, lembra muito o drama principal de As Três Mascaras de Eva, protagonizado por Joanne Woodward. 

 
A ousada personagem de Glória Menezes, Lara, sofria de transtorno de múltipla personalidade, e ora também era Diana e também Márcia


Joanne Woodward deu vida à história real de uma mulher que desenvolveu três personalidades: Eve White, Eve Black e Jane. A atriz venceu o Oscar de Melhor Atriz pela performance


Selva de Pedra, escrita por Janete, é talvez a maior novela brasileira de todos os tempos. Reúne praticamente todos os elementos que consagraram o gênero e inspirou praticamente tudo que foi feito depois de sua exibição. Temos aqui um homem humilde que sonha em vencer na vida, com cenário no Rio de Janeiro - que é a selva de pedra traiçoeira, frenética e desenfreada, palco de ascensões e de quedas, que faz os homens sonharem com o poder e a riqueza. 




É o ''sonho americano'' que fez Theodore Dreiser escrever a obra-prima Uma Tragédia Americana (An American Tragedy, de 1925), a qual serviria de inspiração tanto para Um Lugar ao Sol como para Selva de Pedra, e antes dos dois houve uma adaptação da obra em 1931, com Phillips Holmes, Sylvia Sidney e Frances Dee nos papéis principais. 


Primeira edição do livro à esquerda, e cartaz do filme de 1931 à direita


No filme de George Stevens, Montgomery Clift vive George Eastman, um jovem de origem humilde e bastante ambicioso que tem um tio rico na capital. Ele consegue um emprego subalterno na empresa do tio e se envolve com a humilde Alice (Shelley Winters), mas o rapaz não está contente, e quer subir na vida o mais depressa possível. 




Mas o que desperta a atenção no rapaz acima de tudo é a bela herdeira Angela, vivida pela encantadora Elizabeth Taylor. Os dois se apaixonam perdidamente, e logo parece que todos os sonhos de George estão na palma de sua mão.






George ascende em sua posição e sonha em casar com Angela, mas seus planos são ameaçados pela sua namorada Alice, que está grávida dele e exige que se casem o mais depressa possível. Ela ameaça contar que o filho é de George, arruinando todos os seus sonhos. Alice se mostra uma pedra no caminho de George, e ele cogita matá-la afogada em um rio enquanto os dois fazem um passeio de barco. No meio do rio Alice perde o equilíbrio e cai na água, morrendo afogada. George tenta esconder o incidente de todos, mas a verdade vem à tona, e apesar de não ter matado a moça propriamente, a culpa recai toda sobre o rapaz, que termina condenado à morte. Chaplin considerou esse filme como ''o melhor já realizado sobre a América''. 


  


A novela por sua vez bebeu muito na base dessa trama. Aqui o protagonista é Cristiano Vilhena (Francisco Cuoco), um rapaz humilde que  trabalha ao lado de seus pais pobres tocando bumbo no meio da praça, sem grandes perspectivas. Ridicularizado pelos outros rapazes, Cristiano se envolve numa briga com um deles, Gastão Neves, que estava armado e acaba morrendo por conta da própria arma. A única testemunha do incidente é Simone (Regina Duarte), que viu que o rapaz estava apenas se defendendo. Com medo de ser acusado pelo crime, Cris resolve fugir e tentar a sorte no Rio, e consegue um emprego no estaleiro de seu tio rico, Aristides (Gilberto Martinho). Simone, uma artista plástica, também vai para o Rio em busca de novas oportunidades, e lá os dois se apaixonam, se casam e vão viver numa pensão.




Mas a ambição de Cristiano não o deixa se contentar com a vida simples que leva ao lado da esposa. Ele quer subir cada vez mais na empresa e sonha com uma vida de riqueza e poder igual a de seu tio. Cristiano conhece a herdeira excessiva Fernanda (a linda Dina Sfat). Apesar de ser noiva do primo dele, Caio (Carlos Eduardo Dollabella), Fernanda se apaixona perdidamente por Cris. 




Daí que Cristiano fica dividido entre o amor puro por Simone e o charme do poder do dinheiro de Fernanda, a quem ele na verdade não ama. Ele esconde que é casado com Simone, e na família é cada vez mais certo o seu noivado com Fernanda. Simone vira uma ameaça para os planos ambiciosos de Cris, e então surge a possibilidade de tirá-la de seu caminho.




Como no filme, o protagonista fica dividido entre duas mulheres, uma representa a vida simples e a outra a riqueza, e almejando a segunda, a primeira se torna um obstáculo. Se no filme o rapaz era apaixonado pela herdeira, aqui ele apenas se deixa seduzir por ela, mas na verdade seu verdadeiro amor é sua esposa Simone. 


O triângulo amoroso da novela é entre Cris (Cuoco), Simone (Regina) e Fernanda (Dina)


Mas é tamanha sua obsessão para subir na vida que surge a ideia de matar Simone, proposta pelo vilão Miro (Carlos Vereza), amigo dele que se mostra um homem perigoso. 




Na novela, Cristiano se atormenta com a ideia de matar a mulher, mas no fundo não é o que ele realmente quer pois ele a ama, diferente do que ocorre no filme. Recai então sobre Miro a insistência em se livrar dela, e é o vilão que realmente leva a ideia a cabo. Ele escreve uma carta para Cristiano sobre sua ideia de matar a mulher de propósito para Simone ler. Assustada achando que Cris quer matá-la (e era esse o objetivo de Miro), ela foge com a empregada Lena (Tamara Taxman) num Fusca e dispara para longe, mas Miro a persegue. Desesperada, ela perde a direção, o carro capota na Rio-Petrópolis e explode.




Ao invés de um acidente de barco, aqui ocorre um acidente de carro, porém Simone não morre. Ela sobrevive e resolve fugir para Paris, recomeçar a vida sob uma falsa identidade: Rosana Reis. Para ela foi Cristiano que tentou matá-la, e ao mesmo tempo que ela tem raiva e medo dele, ela ainda o ama. Mas para todos, Simone morreu no acidente (o corpo encontrado no carro é o de sua empregada). 

Os planos de Janete Clair inicialmente eram de casar Cristiano com Fernanda, mas a Censura vetou essa possibilidade já que Simone estava viva, o que seria bigamia. Então as coisas mudaram: Cristiano se sente culpado pela morte da esposa e fica tão atordoado que resolve desistir de se casar com Fernanda, e a deixa esperando sozinha no altar. A partir dali, Fernanda se fecha para a vida, se torna uma mulher amarga, odiosa e que faz de seu objetivo de vida destruir Cristiano, o homem que a abandonou. Mas na verdade ela ama Cristiano a ponto de enlouquecer. Sempre achei Fernanda uma ''vilã'' fascinante, uma mulher linda e independente mas muito perigosa, pois ela chega a dar calafrios com seus delírios. Palmas para a excelente performance de Dina! Christiane Torloni, do que pude assistir, também deu show.



Até no visual ela só usa preto e uma maquiagem pesada, parecendo um fantasma, a tal ponto que quando aceita se casar com Caio, ela usa um vestido preto. A herdeira excessiva aqui na novela vira a antagonista, bem distante da herdeira ingênua de Taylor que no fim vira uma freira e se solidariza com o grande amor de sua vida antes dele ir para a cadeira elétrica.


No remake da novela, em 1986, Christiane Torloni viveu a antagonista Fernanda. Caio foi vivido por José Mayer. Cristiano e Simone foram vividos por Tony Ramos e Fernanda Torres


Caio e Fernanda se unem para destruir Cristiano, que herdou o estaleiro depois da morte do tio

Dessa fase em diante, a novela toma seu próprio rumo e vira um dramalhão dos bons. De volta ao Brasil, Simone mantém sua identidade de Rosana Reis, uma bem sucedida artista plástica. Ela faz questão de esquecer a ingênua e submissa Simone que foi. Cristiano, agora dono do estaleiro, vira um grande homem de negócios, mas frustrado pela perda de seu grande amor. O poder com que tanto sonhou não o faz feliz. Os dois alcançaram o sucesso, mas nenhum consegue esquecer o outro.

Em uma exposição de arte, Cris reconhece Simone, mas ela diz ser Rosana Reis, irmã de Simone, e finge não conhecê-lo. Ela se tornou uma mulher mais forte e tenta levar sua vida de artista plástica de sucesso, quer esquecer e pensa até em vingança contra o marido, mas aos poucos percebe que não consegue viver sem Cristiano. 




Estamos falando de uma época em que a televisão praticamente dominava o país, e as pessoas literalmente paravam para acompanhar os desenlaces das tramas que conseguiam parar o Brasil. Foi Selva de Pedra que conseguiu atingir os inimagináveis 100% de audiência (!) na transmissão do capítulo 152, no dia 4 de outubro de 1972, quando Simone finalmente é desmascarada. Todos descobrem que ela não morreu no acidente de carro, e desde então se escondeu sob a identidade falsa de Rosana Reis. Mas Simone e Cris ainda estavam muito longe do final feliz para uma história de amor tão conturbada. 




Nessa confusão toda, mais para a reta final da novela, a novela volta a se assemelhar com Um Lugar ao Sol, pois a história vai terminar no tribunal. Mas como já mencionado, uma possível ''culpa'' concreta de Cristiano na ''morte'' de Simone é neutralizada, ainda mais que ela nem morreu de fato e ele é o ''herói'' da história (sem deixar de ser humano), e assim o crime pelo qual ele termina por responder num julgamento é o do início da novela, a morte do rapaz com quem ele brigou. Esse episódio da briga a autora retirou de uma história real que ela encontrou no jornal. 

Entre trancos e barrancos, Simone e Cris terminam por se acertar. Para a imprensa eles fingem se odiar, mas só para despistar porque na verdade eles se amam e Simone vai testemunhar a favor dele no tribunal. Porém Fernanda, cada vez mais desequilibrada, prende Simone numa casa abandonada para que ela não deponha no julgamento, pois ela é a única testemunha que pode inocentar Cristiano. Simone fica dois meses presa por Fernanda, que enlouquece de vez e termina em um manicômio sob a proteção incondicional de Caio, que a ama mais que tudo. E enfim Simone é encontrada e libertada. Totalmente debilitada, num forte apelo emocional, a moça vai depor numa cadeira de rodas.




Nesse ponto, a novela pode ser comparada a um outro filme. Em seu texto Sirk: do cinema à TV , presente no catálogo da mostra Douglas Sirk - O Príncipe do Melodrama, a acadêmica Esther Hamburger analisa muito bem as duas cenas de julgamento cruciais de Palavras ao Vento (Written on the Wind, Douglas Sirk, 1956) e de Selva de Pedra em oposição. Apesar da diferença de contexto narrativo, já que Selva de Pedra lembra muito mais Um Lugar ao Sol em sua base, é interessante a comparação das duas cenas que são cruciais quanto ao destino do protagonista. 


''Embora o contexto narrativo seja diferente, as duas cenas são muito parecidas. Ou melhor, inspiram sensações fortes e semelhantes; a emoção figurada plasticamente no rosto angustiado da personagem que depõe. Nesse momento ela é alvo do olhar de dois públicos. Ela atrai as atenções das outras personagens do tribunal e do público espectador em casa ou no cinema. No filme, a emoção congela na superfície do rosto sofrido, pressionado pelas forças invisíveis dos ditames morais a proferir a sentença mais justa, independente de seus interesses ou posicionamentos pessoais. Na novela, a personagem chega para depor em uma cadeira de rodas, seu corpo depauperado pela ação invejosa da vilã enlouquecida. As forças dos sentimentos atuam sobre o corpo que recebe as marcas da maldade. O apelo da cena é visceral. Os signos são óbvios e exagerados. Os sentimentos se materializam na superfície. Em um universo de signos ''puros'', estamos livres para pensar a inter-referencialidade (em vez da relação entre significantes e significados).''



No filme de Sirk, a personagem de Dorothy Malone é a única que pode inocentar Rock Hudson, e mesmo sendo uma herdeira mimada e ressentida por não ter o amor retribuído por ele, ela confessa que seu irmão não foi morto por ele, e sim que ele se matou (voltaremos a esse filme mais para a frente). No fim ela termina sozinha.


Apesar de concordar com a falta de um trabalho de maior profundidade que deixe mais coisas no ar ao invés de apelar para o sentimentalismo fácil e por vezes barato, típico das novelas, Selva de Pedra é uma novela muito bem produzida. Como não se faz mais, uma produção histórica que merece ser vista para quem adora uma história bem conduzida e um entretenimento de qualidade, além das maravilhosas atuações de um elenco de peso. Ela foi recentemente lançada em DVD pela Globo Marcas.

E é claro que o final numa novela não poderia deixar de ser feliz. Cristiano e Simone enfim ficam juntos e partem num navio, o único que ele tem agora depois de largar o estaleiro, para reconstruir sua vida ao lado de sua amada. Tudo isso ao som de Rock and Roll Lullaby, de B.J. Thomas, tema do casal. 




CARINHOSO (Lauro César Muniz, 1973) x SABRINA (Billy Wilder, 1956)


          


Regina Duarte strikes again nessa novela das 19h que foi um grande sucesso, exibida de julho de 1973 até janeiro de 1974. Tanto o filme de Audrey Hepburn como a novela de Regina Duarte se basearam na peça Sabrina Fair - A Woman of the World, de Samuel Taylor. Ela estreou na Broadway em 1953 com Margaret Sullavan e Joseph Cotten nos papéis principais. Mas na adaptação para o cinema escolheram William Holden, Humphrey Bogart e a doce (minha diva-mór) Audrey Hepburn para o papel de Sabrina. E na novela o trio ficou Regina Duarte, Marcos Paulo e Cláudio Marzo - o nome da novela é pela música Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro, que foi o tema de abertura.


Margaret Sullavan e Joseph Cotten fizeram par na primeira montagem de Sabrina Fair, um grande sucesso

A história é praticamente a mesma, mesmo que na novela a personagem principal tenha ganho o nome de Cecília. Tanto Sabrina como Cecília são filhas de um empregado de uma grande mansão onde vive uma família muito rica. No filme Sabrina é apaixonada por David (Holden), e na novela Cecília por Eduardo (Marcos Paulo), ambos os dois caras são o tipo inconsequente que não leva a garota humilde a sério. De corações partidos, Sabrina no filme vai para Paris estudar, e Cecília na novela vai para Nova York trabalhar como aeromoça. 

  


Anos depois, elas voltam poderosas e cheias de charme. No filme, Sabrina continua a fim de conquistar David, apesar dele ser noivo de Elizabeth (Martha Hyer, ''Who is Sabrina??''). Mas apesar do clima esquentar entre os dois, o irmão de David, Linus (Humphrey Bogart), quer separar os dois apenas visando os negócios da família, que ficaria prejudicada com o possível casamento entre eles. Mas Linus se apaixona por Sabrina, e ela também por ele.




Na novela não é muito diferente. Cecília, de volta ao Rio, quer reconquistar Eduardo, mas  como num novelo de 174 capítulos que se preze, ela terá que enfrentar as armações do argentino Santiago Morales (Herval Rossano), apaixonado por Cecília, e a ex-namorada de Eduardo, Marisa (Débora Duarte). Mas principalmente do irmão de Eduardo, Humberto (Cláudio Marzo), que esconde uma paixão por Cecília. A moça, como a Sabrina do filme, fica dividida entre os dois irmãos, mas no fim ela descobre que o grande amor da sua vida é Humberto. E assim Regina e Cláudio emplacaram o quarto casal de sucesso  deles na telinha. Veja trechos do primeiro capítulo:



Cecília e Eduardo 

Cecília e Humberto 

Regina venceu o Troféu Imprensa de Melhor Atriz na época pela sua performance na novela, mas a atriz não quis aceitar e resolveu passá-lo para Eva Wilma pela sua performance marcante como as gêmeas Ruth e Raquel na Tupi. Falando nisso, vamos às gêmeas!


MULHERES DE AREIA (Ivani Ribeiro, 1973 e 1993) X UMA VIDA ROUBADA (A Stolen Life, 1946)


     



Ivani Ribeiro, também autora de A Viagem e A Gata Comeu, quando resolveu escrever Mulheres de Areia se inspirou numa antiga radionovela sua, As Noivas Morrem no Mar, que por sua vez foi inspirada no filme Uma Vida Roubada, estrelado duplamente pela rainha Bette Davis na pele de irmãs gêmeas. Somando também o enredo de uma outra novela sua, O Espantalho, Ivani assim criou Mulheres de Areia, que tanto na Tupi nos anos 70 como o remake de 1993 na Rede Globo fizeram grande sucesso. E o próprio filme de Bette Davis já era um remake de um outro filme já feito em 1939 com Michael Redgrave e Elizabeth Bergner (sim, um ciclo sem fim).


Quem é quem? 


No filme, estrelado e também produzido por Davis, temos a doce e solitária Kate que se apaixona por Bill (Glenn Ford). Os dois se conhecem num farol e a atração é instantânea. Depois de se reencontrarem eles começam um relacionamento. Mas a felicidade de Kate é interrompida quando sua irmã gêmea Patricia resolve tomar o homem da sua irmã para si.   Primeiro fingindo ser Kate, depois seduzindo o rapaz com todo o sex appeal que falta na irmã, e assim consegue casar com ele. 




Preciso nem dizer que Kate é a virtuosa enquanto Pat a fria e calculista. Com todo o seu talento, Bette consegue nos dizer quem é quem apenas com o olhar. Mas claro, apenas o bobalhão que fica entre as duas é que não sabe distinguir uma da outra. 

O desafio para as atrizes é o de interpretar quatro papéis: a gêmea boa, a gêmea má, a boa que finge ser a má e a má que finge ser a boa.


A gêmea má (sempre fumante) finge ser a boazinha para agarrar o bom partido


A trama tem uma reviravolta quando as gêmeas são vítimas de um acidente de barco, e a irmã malvada morre. Kate sobrevive, mas decide se passar pela irmã para ficar ao lado do homem que ama. Mas na pele da irmã ela tem que suportar uma teia de intrigas e mentiras. Depois de um dramalhão básico, Bill já sabe que é Kate afinal de contas, e descobre que é ela quem ele realmente ama, e os dois terminam felizes para sempre. 


E Bette Davis voltaria a viver gêmeas novamente em Alguém Morreu no Meu Lugar (Dead Ringer, Paul Henreid, 1964). Só que dessa vez, nenhuma das duas prestava! 




A novela de Ivani Ribeiro se inspirou no filme Uma Vida Roubada até o momento do acidente e da irmã boa tomando o lugar da malvada. Como diria o Tonho da Lua (vivido por Gianfrancesco Guarnieri na Tupi e por Marcos Frota na Globo), ''a Rutinha é boa e a Raquel é a malvada''. Ruth e Marcos (Carlos Zara em 73 e Guilherme Fontes em 93) se apaixonam, mas Raquel consegue fisgar o moço e casar com ele, apenas por interesse. Depois do acidente, Ruth é a única resgatada, e com a ajuda de Da Lua, assume a identidade da irmã. O contraste das duas é nítido: Ruth é meiga, doce e ingênua, usa pouca maquiagem e cabelo bem penteado; Raquel é ambiciosa, sem escrúpulos, vive cheia de maquiagem, joias e de preferência com um cigarro e um copo de whisky na mão. Em ambas as épocas foi a gêmea má que chamou mais a atenção do público.






 
Eva Wilma como Ruth e Raquel em 1973


 Glória Pires como Ruth e Raquel em 1993


Mas para conseguir um gancho a mais em sua novela, a autora fez uso de mais um plot twist sensacional: a gêmea má na verdade não morreu, e ela está sedenta de vingança contra todos os seus inimigos, em especial sua irmã que tomou o seu lugar. Escondida numa cabana, Raquel trama um plano para acabar com Marcos e Ruth: ela atira em seu ex-amante Wanderley com o revólver de Marcos, que vira o principal suspeito e corre o risco de apodrecer na cadeia. Mas Ruth que ainda finge ser Raquel, por amor a Marcos, se entrega dizendo ter matado Wanderley. 

Durante o tenso julgamento, sob pressão, Ruth confessa que fingiu o tempo inteiro ser a irmã. Para a surpresa de todos, Wanderley já estava morto quando levou o tiro de Raquel: uma de suas amantes, grávida e abandonada por ele, perdeu a cabeça e deu uma garrafa fatal na cabeça do cafajeste.

Ruth consegue ser inocentada. E assim o plano de incriminar Marcos e Ruth pela morte de Wanderley dá errado. Mas Raquel ainda não desistiu de se vingar. E é a vingança de Raquel a melhor parte da novela inteira!


  
Raquel nas duas versões


Decidida a se vingar, Raquel resolve voltar de uma vez e reassumir o seu lugar, se transformando num fantasma que assombra a vida de todos. Além de destruir seus desafetos, ela não quer que Marcos e Ruth fiquem juntos de jeito nenhum, e consegue armar uma que quase os separa para sempre. Ruth enfim se dá conta de que a irmã não presta, e aos poucos se torna uma pessoa mais forte e independente, sem ficar mais à sombra de Raquel, agora batendo de frente com ela.




No final, Raquel morre finalmente, dessa vez para sempre: ela é assassinada, no original com um tiro à queima-roupa e no remake num acidente de carro após uma emboscada. Marcos e Ruth podem enfim viver em paz e felizes.



Ivani Ribeiro, a autora

Ivani Ribeiro se consagrou como uma autora de sucesso e suas novelas fizeram história na televisão brasileira. Mesmo que a Globo tenha se consolidado na liderança de audiência com os sucessos de Janete Clair e cia, as tramas de Ivani conseguiam também muito sucesso e repercussão, ainda mais quando a autora fez remakes das próprias obras já na Globo. Suas tramas muito bem escritas sempre conseguiam conquistar o público, desde tramas super novelescas até coisas mais simples e singelas. Além de ter feito grandes novelas na Tupi, Excelsior e Bandeirantes, quando foi para a Globo nos anos 80 em diante conseguiu fazer excelentes remakes de seus antigos folhetins, todos muito bem sucedidos, como A Gata Comeu (1985) e A Viagem (1994). Assim como foi a original de 1973, o remake de Mulheres de Areia entrou para sempre na história da teledramaturgia do Brasil.  




Em Paraíso Tropical (Gilberto Braga e Ricardo Linhares, 2007), novamente as protagonistas eram irmãs gêmeas: Paula e Taís, vividas por Alessandra Negrini. Na novela também ocorreu um acidente de barco que mudava os rumos da história, mas ocorreu diferente: a gêmea má, com ajuda, tira a boa de cena (de propósito) e toma seu lugar no dia de casamento com o noivo dela, Daniel (Fábio Assunção). Paula só voltaria tempos depois para retomar seu lugar. Taís no final é assassinada pelo vilão Olavo (Wagner Moura).





Mulheres de Areia foi recentemente reprisada pelo Canal Viva e facilmente se encontra os capítulos online pela internet. A versão da Tupi, infelizmente como todo o acervo antigo da TV até meados dos anos 70, mal foi preservado: restaram por volta de 20 capítulos dos originais 243. Mas muitas cenas estão disponíveis no Youtube e você pode assistir trechos de muitas obras da TV Tupi no Banco de Conteúdo Culturais (BCC) da Cinemateca Brasileira, clicando aqui


A SUCESSORA (Manoel Carlos, 1978) x REBECCA (Alfred Hitchcock, 1940)


Obrigado ao Cinespresso pela imagem!

Entre o fim de 1978 e começo de 1979 foi exibida no horário das 18h um dos maiores sucessos da Globo: A Sucessora, até hoje lembrada como uma das melhores produções da TV pelos saudosistas. Antes de Manoel Carlos viver de merchan social e catástrofes domésticas no Leblon (com todo respeito ao Maneco), ele fazia novelas românticas  de época baseadas em livros, como foi com Maria Maria (1978) e com essa A Sucessora, baseada no romance de Carolina Nabuco. Mas sem o autor abrir mão da sua profundidade psicológica e de sua crítica social que o caracterizaram desde essa época até trabalhos mais recentes.


Antes de irmos para as obras filmadas, há uma treta muito interessante com relação a semelhança entre A Sucessora e Rebecca. Carolina Nabuco acusou de plágio a autora do romance Rebecca, Daphne du Maurier, que inspirou o filme de Hitchcock. E realmente ela tinha motivos, pois Carolina escreveu A Sucessora no começo dos anos 30, antes de Daphné lançar Rebecca. Nabuco tinha enviado um manuscrito traduzido para editores ingleses, próximo da época que du Maurier começou a escrever o seu Rebecca. Até hoje fica a dúvida no ar se Daphne realmente leu o livro antes de escrever o seu, e pelo visto é muito provável que sim. Apesar de tudo, Carolina nunca chegou a processar ninguém.


E sabiam que antes de A Sucessora, já houve uma novela baseada em Rebecca? E uma ainda mais óbvia: chamada A Sombra de Rebecca, de 1967. Nessa novela, mistura de Rebecca com Madame Butterfly (???), um aristocrata vivido por Carlos Alberto, depois de perder sua esposa Rebecca, se apaixona por uma gueixa vivida por Yoná Magalhães (os dois atores formaram um dos casais 20 da TV). Mas a relação é mal vista por todos, sem falar das intrigas da governanta que mantem viva a presença da falecida esposa. No fim, Rebecca reaparece e volta para o marido. A pobre moça japonesa rejeitada decide pôr um fim em sua vida através dum haraquiri. (não me perguntem o nexo dessa história)


Mas indo ao que interessa: A Sucessora não deve nada ao filme de Hitchcock! Apesar de bem longe da adorabilidade de Joan Fontaine como a bela protagonista no filme, Susana Vieira (quando ainda podia ser levada a sério) dá vida à protagonista Marina Steen com muita competência e conquista o espectador. Na novela a nova esposa tem nome! Nada de Segunda Mrs. de Winter, aqui é Marina Steen! Moça perspicaz, espirituosa e feminista, que realmente se impõe. 

   
Rubens de Falco e Susana Vieira em foto publicitária para a novela; Laurence Olivier e Joan Fontaine em foto publicitária para o filme de 1940


Seu marido é Roberto Steen (Rubens de Falco), o viúvo da ''mulher inesquecível' , tão atormentado quando Max de Winter vivido por Laurence Olivier. Mas aqui não é Rebecca, e sim Alice Steen, e assim como a Rebecca de Hitchcock, não há atriz nenhuma para interpretá-la nem cenas de flashback: ela é apenas evocada pelos outros, por relatos. Lembranças esparsas como peças de um quebra-cabeça interminável. E assim sua presença se torna mais viva do que nunca - esse é o verdadeiro terror!  Era Hitchcock que tinha fascínio por essa questão do desconhecido despertar mais medo do que todas as outras coisas, como o fato dos pássaros de seu outro filme não terem um motivo aparente para atacarem, o que torna o medo ainda maior. É disso mesmo que estamos falando. 

Manoel Carlos claramente bebeu do cinema de Hitchcock para criar o clima de suspense psicológico que ronda A Sucessora

Com o fantasma de Alice rondando a casa, a felicidade conjugal de Marina e Roberto se torna impossível. Além da presença constante da alma da falecida, Marina, uma moça da fazenda, tem dificuldades de se ajustar à alta sociedade do Rio dos anos 20, cheia de hipocrisias, festas intermináveis e artificialismos. 


Marina, a ''segunda senhora Steen'', e o quadro de Alice Steen, ''a mulher inesquecível''

É tamanho clima de paranoia que chega até a parecer O Bebê de Rosemary (Roman Polanski, 1968). Apesar de diferentes contextos (risos), nas duas situações os personagens tentam enganar e afastar a protagonista da verdade. Assim como Rosemary, Marina não se contenta com o que dizem sobre Alice e tenta de todas as formas descobrir a verdade sobre a mulher inesquecível - por mais tenebroso que pareça. O que será que tem no quarto de Alice Steen que vive trancado ?? 



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Mas o grande triunfo de A Sucessora é o trabalho de Nathalia Timberg como a governanta Juliana, tão tenebrosa quanto a Mrs. Danvers de Judith Anderson (maravilhosa) em Rebecca. Em ambas as obras, a figura da governanta perversa não deixa a presença da mulher falecida se apagar, e atormenta a nova dona da casa com todas as suas armas. 


  
Mrs. Danvers tenta persuadir uma desolada Mrs. de Winter a pular da janela, numa sequência arrepiante deste que é um dos melhores filmes do Mestre do Suspense


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Juliana, descontrolada, aperta um buquê de rosas com as próprias mãos até sangrar. A atriz rasgou a mão de verdade na cena, tamanha a sua entrega ao trabalho. Será que ainda veremos algo assim na televisão? Obrigado @nizio_pedrosa pelo excelente gif! ♥


     
Outra governanta Juliana que tocou o terror na TV foi vivida brilhantemente por Marília Pêra em O Primo Basílio, minissérie baseada no livro de Eça de Queiroz. Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles, foi outro romance adaptado para TV com uma governanta diabólica: Frau Herta (Norma Blum em 1981 e Ana Beatriz Nogueira em 2008)


A Sucessora foi lançada num compacto pela Globo Marcas. O Cinespresso fez um post bem bacana sobre a novela! Segue o link.


GUERRA DOS SEXOS (Sílvio de Abreu, 1983) x A COSTELA DE ADÃO (George Cukor, 1949)



- Homens e mulheres são iguais. 
- São mesmo, é?
- Bom, talvez exista uma diferença, mas muito pequena. 
- Como dizem os franceses.
- O que eles dizem?
- Dizem ''Vive la différence!''
(A Costela de Adão, 1949)




A Costela de Adão é uma das melhores e mais divertidas comédias da Hollywood Clássica, e provavelmente um dos primeiros filmes a tratar tão abertamente da igualdade de gênero e até de questões feministas, isso entre os anos 40 e 50! Kate Hepburn e Spencer Tracy interpretam um casal de advogados que se encontra agora em lados opostos do tribunal ,quando ele é responsável pela acusação e ela pela defesa. As coisas vão fugindo do controle, não apenas no tribunal mas na vida pessoal dos dois, pois ele faz o tipo rude e grosseiro, e ela está até disposta a perdê-lo para fazer valer os seus direitos de mulher livre e independente. A guerra está declarada!


A antológica guerra de comida entre Charlô e Otávio na versão original da novela em 1983


A comédia rasgada de Sílvio de Abreu, um marco antimachista na história da TV, foi protagonizada por Fernanda Montenegro e Paulo Autran na pele dos primos arqui-inimigos Charlô e Otávio. A história é diferente, mas o mote de guerra dos sexos é o sustentáculo da trama. Antigos namorados de infância, hoje rivais, os dois herdam de um tio falecido a rede de lojas Charlô's e a mansão onde moram. O atrito entre os dois é diário, e por fim eles resolvem fazer uma aposta: em cem dias um dos dois deve abrir mão de sua parte da herança. Charlô deve nesse período elevar o lucro da loja com a ajuda de suas aliadas Roberta Leone (Glória Menezes), Juliana (Maitê Proença) e Vânia (Maria Zilda). Do lado dos homens, que vão armar tudo para prejudicar Charlô, estão Otávio, o filho adotivo de Charlô, Felipe (Tarcísio Meira), e a inescrupulosa Carolina (Lucélia Santos), sobrinha de Roberta que trai as mulheres ao se aliar a Otávio. 




Cinéfilo de carteirinha, Sílvio de Abreu não poupa referências de cinema nas suas novelas.

Passione (2010) tinha um quadrângulo amoroso semelhante ao do filme Palavras ao Vento. Tanto no filme como na novela, havia uma disputa entre o filho problemático (Robert Stack/Marcelo Antony) e o agregado exemplar (Rock Hudson/Rodrigo Lombardi) pelo amor de uma moça linda e bondosa (Lauren Bacall/Carolina Dieckmann), todos atormentados pela herdeira excessiva (Dorothy Malone/Mayana Moura).  


 

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A terna mulher (Bacall) é disputada pelo bom moço agregado da casa (Hudson) e pelo cara problemático (Stack), e ainda tem a herdeira excessiva (Malone) para pôr lenha na fogueira

Belíssima (2005) tinha ares de semelhança com o filme Closer (Mike Nichols, 2004), principalmente na protagonista que chamava Julia que nem Julia Roberts e o Marcelo Antony que era a cara do Jude Law. E até a tilha sonora tinha a mesma música do filme Lol




Em Rainha da Sucata (1990), os paralelos com cinema eram muitos. O par atrapalhado formado por Cláudia Raia e Antônio Fagundes era totalmente inspirado em Cary Grant e Katharine Hepburn em Levada da Breca (Bringing up Baby, Howard Hawks, 1938) ! 




Os filmes Esta Pequena é Uma Parada (What's Up Doc?, Peter Bogdanovich, 1972) com Barbra Streisand e Ryan O'Neal (foto acima) e O Esporte Favorito dos Homens (Man's Favorite Sport?, 1964) com Rock Hudson e Paula Prentiss (foto abaixo) também são inspirados em Levada da Breca, o segundo foi dirigido até pelo próprio Howard Hawks.





Além de Katharine Hepburn em Levada da Breca, atrizes como Carole Lombard, Irene Dunne (acima), Jean Arthur e Rosalind Russell (abaixo) se consolidaram como rainhas das ''comédias malucas''  de Hollywood (screwball comedy)



(Parênteses: a rica Jô Penteado de A Gata Comeu ((maior stalker que você respeita)) me parece tão destrambelhada quanto a Kate Hepburn de Levada da Breca e agregadas! E quando ela sequestra seu grande amor, o conservador professor Fábio (Nuno Leal Maia), ela admite que se inspirou no filme O Colecionador, de 1963. Ao invés de colecionar  borboletas como no filme, Jô possui uma coleção de noivos, uma verdadeira ''barba azul'': oito ex-noivos! Mas apesar de totalmente fora da casa, Jô ama de verdade Fábio, amadurece ao longo da novela, sofre até uma crise de amnésia por um tempo, mas no fim vive feliz ao lado dele - seu nono e último noivo, o primeiro, único e verdadeiro amor de sua vida, além de virar uma grande mãe dos filhos dele, assim vivendo todos felizes para sempre no final. Há quem diga que a trama lembra um pouco A Megera Domada, não muito pela história mas pelos tipos de personagem que vivem brigando: a mulher impetuosa e desbocada x um homem bruto e rude que faz ela descobrir o amor.  Das brigas intermináveis nasce o amor e a cumplicidade. Mas ao contrário de Catarina, que espantava os homens com seu gênio, Jô atraía todos aos seus pés, mas só se interessou de verdade pelo mais difícil: o tímido professor, que depois de poucas e boas também engoliu o seu orgulho e admitiu sua paixão por Jô. É, a gata ''comeu'' o coração dele!


Jô e Fábio, forever by your side (8). 



A @ClaraLopesAssis do Twitter comparou o look inicial da Jô com a Joan Crawford jovem. Não seria a primeira vez que a Joan inspira o visual das divas da TV



Notem também que as roupas ''boyish'' da Jô lembram muito o visual de Diane Keaton em Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Woody Allen, 1977)



A obsessão de Jô por Fábio, diferente do Colecionador, é inocente: a moça rica e mimada vê sua vida mudar quando se apaixona de verdadeaos 30 anos e pela primeira vez, por um professor pobre e viúvo, oposto de tudo que ela conhece. A relação tumultuada com ele faz Jô crescer e parar de colecionar noivos como antes fazia - lhe rendendo o apelido de Lucrécia Bórgia. O amor por Fábio preenche o vazio afetivo que o pai de Jô tentava compensar com dinheiro e presentes, vazio inconsciente que culmina numa temporária amnésia que apaga até Fábio de sua cabeça. No fim, quando leva um tapa do professor, igual no começo da novela quando se apaixonou por ele na ilha, ela lembra de tudo e eles finalmente fazem as pazes de vez, rendendo inesquecíveis beijos e juras de amor. Jô e Fábio, junto dos dois filhos dele, terminam felizes para sempre


Só pra o vento! Eva Wilma deu vida à Jô Penteado na novela original da Tupi, que se chamava A Barba Azul (1974)


   
Jô, que vivia como gato e rato com Fábio, tinha que bater de frente com a noiva do professor, a chatinha Paula (Fátima Freire) e a invejosa Gláucia (Bia Seidl)


Mas deixando Ivani Ribeiro um pouco de lado e voltando aos folhetins de Sílvio de Abreu: no núcleo de Renata Sorrah e Daniel Filho ainda em Rainha da Sucata, sobre um cara corrupto que tenta fazer a mulher se passar por louca só para conseguir sua herança, bebia muito da premissa de filmes como À Meia Luz (Gaslight, de George Cukor, 1945) e Sonha Meu Amor (Sleep My Love, Douglas Sirk, 1948). Até a empregada da novela chamava Angela - que nem a intérprete de Gaslight: Angela Lansbury. E essa atmosfera de suspeita da mulher sobre o marido me lembra também um pouco de Suspeita (Suspicion, Alfred Hitchcock, 1942), mas nesse caso, no fim, o marido é inocente (por pressão sobre Hitchcock, pois na verdade ele planejava que Cary Grant quisesse realmente matar Joan Fontaine no filme).


    
Ingrid Bergman e Claudette Colbert, assim como Renata Sorrah na novela, são vítimas de golpistas que querem enlouquecê-las 


Cary Grant leva um misterioso copo de leite brilhante para sua esposa Joan Fontaine: quais suas intenções?


Mariana, personagem de Renata, era cinéfila inveterada. Numa das várias referências cinéfilas, uma das mais bonitas da personagem num momento Bette Davis em A Estranha Passageira. Obrigado ao O Filme Que Vi Ontem pela montagem!


Logo no início da novela a heroína Maria do Carmo, ainda jovem, é humilhada pelos colegas quando é coroada rainha do baile, numa clara alusão à cena antológica do filme Carrie, A Estranha (Brian de Palma, 1976). 


Maria do Carmo, a ''sucateira'' que vira uma nova rica, em oposição à antiga elite paulistana decadente, resolve se vingar de Edu (Tony Ramos), o boa-vida que a humilhou, comprando-o com um casamento para salvar sua família da ruína. No maior estilo ''Senhora'', o amor prevalece

A cena foi usada como inspiração também em Chocolate com Pimenta (2004), de Walcyr Carrasco, anos depois quando Ana Francisca (Mariana Ximenes) leva um balde de tinta verde durante um baile da cidade e é humilhada por todos. A história do ''patinho feio'' que renasce como uma mulher glamourosa, aqui dona da fábrica de chocolates, lembra bastante a ideia de A Estranha Passageira também.


   

Sissy Spacek como Carrie, a pioneira da humilhação nos bailes de colégio. Bem mais prática do que as mocinhas de novela, a garota se vingou de todo mundo de uma vez com seus poderes telecinéticos 


E claro, a famosa cena do juramento em que Ana Francisca promete que vai se vingar de todos que a humilharam remete à famosa cena de E O Vento Levou... (1939) quando Scarlett O'Hara (Vivien Leigh esplendorosa) jura que jamais passará fome outra vez.


''As God as my witness, I'll never be hungry again!''


O Cravo e a Rosa, também de Walcyr Carrasco, foi inspirada em A Megera Domada de Shakespeare, que já rendeu muitas adaptações no cinema, desde a versão com Elizabeth Taylor e Richard Burton até a modernizada 10 Coisas que Eu Odeio em Você. A novela de Walcyr ainda tinha uma abertura inspirada no cinema mudo

Mas ainda em Rainha da Sucata, a vilã Laurinha Figueroa ia enlouquecendo e ficando sozinha na sua decadência e com os seus delírios, lembrando muito a Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, Billy Wilder, 1950). Ficou curioso por mais referências na novela? O blog O Filme Que Vi Ontem reuniu várias! Clique aqui para ler. 


Numa cena icônica, depois de brigarem, Laurinha se joga do alto de um prédio para incriminar Mario do Carmo, mas o plano da vilã falha e a mocinha é inocentada




A personagem do cinema foi usada como referência inúmeras vezes, também em Duas Caras (2008) de Aguinaldo Silva (outro cinéfilo), quando a vilã Sílvia (Alinne Moraes) vai parar em um hospício e até fala na cara dura ''Estou pronta para meu close'' igual a Norma no final do filme clássico. 

  
''Alright, Mr. DeMille, I am ready for my close-up''


Outra famosa personagem delirante é a Blanche DuBois de Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, Elia Kazan, 1951). Laurinha diz em um capítulo que ''não quer a realidade, quer a magia'' igual a personagem de Tennessee Williams, vivida por Vivien Leigh. Apesar da história e do contexto serem diferentes, ambas são personagens que representam a decadência de um antigo passado esplendoroso, no filme o Sul dos Estados Unidos e na novela a antiga elite paulistana. Hoje, tudo são ruínas e elas preferem viver de ilusões para escapar da realidade cruel. 





Abro um parêntese para comentar em especial a vilã Sílvia de Duas Caras, que durante a novela surta de vez. Algumas de suas traquinagens lembram e muito uma das vilãs pioneiras do melodrama: a personagem de Gene Tierney em Amar Foi Minha Ruína (Leave Her to Heaven), de 1945.

Ellen (Gene Tierney) se apaixona por Richard (Cornel Wilde), mas ela revela um ciúme doentio por ele, contra qualquer pessoa que cruze o seu caminho


Além das duas serem muito ciumentas e sem limites, em dois momentos especialmente Sílvia em muito se assemelhava a Ellen. Num dos ápices da novela, Sílvia resolve se jogar do alto da escada para estragar a festa do garoto filho do homem que ela ama e rouba suas atenções. No filme, Ellen estava grávida e não queria ter o filho, então se jogou da escada de propósito só para perdê-lo - provavelmente ela teria ciúmes do próprio filho.







Mas em Senhora do Destino (2004), folhetim anterior de Aguinaldo, a icônica Nazaré Tedesco (brilhante Renata Sorrah) preferia empurrar as pessoas da escada, isso quando elas não caíam sozinhas 


Vendo seu amor se afastar cada vez mais dela, Sílvia resolve dar um fim ao filho dele com outra mulher, que por sinal ele está tentando reconquistar. Ela então tenta fazer o garoto morrer afogado durante um passeio de barco. No filme Ellen também pretende dar um fim a no irmão caçula de seu marido, pois ela tem ciúme de toda a atenção que ele dá ao garoto. Na novela, o plano de Sílvia dá errado, claro. Mas no filme, o garoto morre afogado sob o olhar impassível de Ellen.



A atuação de Tierney lhe rendeu uma nomeação ao Oscar de Melhor Atriz, e o filme foi o maior sucesso da Fox na década de 40


Um outro gancho muito usado nas novelas e que acontece na parte final do filme é quando a vilã resolve se matar de propósito apenas para incriminar a rival, no caso a irmã dela, Ruth (Jeanne Crain), outra vítima de seu ciúme patológico. No julgamento Ruth confessa ser apaixonada por Richard, agora viúvo de Ellen, e ele também gosta dela. Richard acaba por pegar uma pena de dois anos, e depois de ser solto volta para os braços de Ruth, finalmente livres da sombra de Ellen para viverem suas vidas. 




VALE TUDO (Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, 1988) x ALMA EM SUPLÍCIO (Michael Curtiz, 1946) 


    


Gilberto Braga também é um cinéfilo inveterado, e suas novelas estão cheias de referências de cinema por toda a parte. Na casa dos Roitman tinha Eugênio (Sérgio Mamberti), o célebre mordomo que em quase toda aparição sua tinha uma referência cinematográfica para fazer! 

Nessa novela (também disponível em DVD e até online), que eu considero uma das maiores novelas de todos os tempos, havia um questionamento sobre o Brasil, em especial a corrupção e a inversão de valores no país recém-saído da ditadura - esse país sempre com uma democracia tão fragilizada, vide nosso contexto atual. By the way, os temas dessa produção continuam mais atuais do que nunca. 

A trama central da novela é a rivalidade entre mãe e filha, tirada do drama Alma em Suplício com Joan Crawford como Mildred Pierce, a mãe humilde que faz todos os sacrifícios do mundo pela filha Veda (Ann Blyth), uma garota mimada que sente vergonha e desprezo pela mãe. 



   



Mãe e filha na novela representam duas visões de mundo opostas: Raquel (Regina Duarte) acredita na honestidade, no trabalho duro e no jogo limpo. Sua filha, a ambiciosa Maria de Fátima (Glória Pires) quer vencer na vida a qualquer preço, ser rica nem que para isso tenha que pisar nos outros. Movida por sua ambição, ela vende a casa onde mora com a mãe em Foz do Iguaçu e parte para o Rio de Janeiro com a grana da casa, deixando a mãe sozinha e sem teto. Raquel vai para o Rio atrás de Fátima, que a humilha sempre que pode pois sente vergonha dela, e está decidida a ''vencer'' com a ajuda de seu amante César (Carlos Alberto Riccelli). Raquel decide então vender sanduíche na praia para sobreviver, e mal sabe ela que isso acabaria virando um grande negócio, e assim ela consegue montar uma rede de restaurantes e se torna uma empresária de sucesso. Já Fátima vira uma aliada da megera Odete Roitman (Beatriz Segall) e com a benção dela, passando por cima de muita gente, consegue casar com o filho de Odete, Afonso (Cássio Gabus Mendes). A única coisa que Fátima almeja na vida é um marido rico para arrancar o máximo de dinheiro possível, e assim ser feliz ao lado do amante.



Fátima se atira das escadas do Municipal para perder o filho indesejado - isso lembra alguma coisa?


Provavelmente fez escola com Lana Turner em Ziegfeld Girl (1941) 

Raquel e seu grande amor, Ivan (Antônio Fagundes), representavam as pessoas honestas e íntegras, enquanto Fátima e César faziam diversas armações para se dar bem. 


Raquel e Fátima brigam a novela inteira. Apesar de gostarem uma da outra no fundo, os valores de cada uma impedem que elas consigam se entender

Uma coisa engraçada que acontece na reta final da novela, e que se aproxima de Alma em Suplício um pouco, é depois que Odete Roitman é assassinada. Maria de Fátima, por intriga de seus inimigos, se torna a principal suspeita do crime. Nessa fase ela já se deu mal em todos os níveis possíveis, e consegue se aproximar aos poucos da mãe. Chega o momento que Fátima para na cadeia pelo crime que ela não cometeu. Raquel decide salvar a filha da prisão e confessa ter matado Odete, para ir presa no lugar da filha. No fim as duas se livram da cadeia. Fátima até tenta ser uma mulher honesta e trabalhadora, mas depois desiste e se casa com um príncipe italiano. Raquel vive sua vida simples e honesta ao lado de Ivan.

Na verdade há todo um contexto na novela para o sacrifício de ambas irem para a cadeia que não vale a pena explicar aqui, mas onde eu quero chegar é que nesse caso há um crime e a mãe se sacrificando pela filha. Em Mildred Pierce já começa com um crime, e é a filha quem realmente matou o marido da mãe - a mãe só casou com ele pela filha, e a filha mantinha um caso com ele! Depois de aprontar tanto, Mildred decide não ajudar mais a filha, e no final a abandona à própria sorte, atrás das grades.


 
Mildred Pierce virou um clássico do cinema noir ao misturar a história dramática original de James M. Cain com uma trama de assassinato e uma atmosfera sombria


Em 2011 foi realizada uma ótima minissérie de Mildred Pierce pela HBO com Kate Winslet no papel


Ainda podemos lembrar meio vagamente de Tudo O Que O Céu Permite (All That Heaven Allows, Douglas Sirk, 1956) quando Odete Roitman se apaixona pelo gigolô César, muito mais jovem e pobre, de tal forma que rompe com todos e larga tudo para viver com o amante. Bem longe do amor recíproco de Jane Wyman e Rock Hudson no filme, Odete descobre que César só queria extorqui-la para fugir com Maria de Fátima. Ela termina sozinha e ainda é assassinada. 


    
É muito recorrente nas novelas o difícil relacionamento, devido à rejeição da sociedade hipócrita com seus preconceitos, entre uma mulher mais velha e de classe mais abastada com um homem pobre e mais jovem, como acontece em Tudo o Que o Céu Permite. Inspirado em Sirk, especialmente nesse filme, Todd Haynes dirigiu o excelente Longe do Paraíso (Far From Heaven, 2002)


Curiosidade: Afinal quem matou Odete Roitman? Leila (Cássia Kiss), ironicamente uma coadjuvante que não tinha motivo algum para matá-la. Ela viu a sombra do outro lado da porta de vidro e pensou que era Fátima, que na época estava tendo um caso com o marido de Leila, o cafajeste Marco Aurélio (Reginaldo Faria). Assim ela disparou, transtornada, três tiros à queima-roupa sem saber que quem estava atrás da porta era na verdade Odete. Leila e Marco Aurélio conseguem fugir do Brasil.



Indo mais além, não é só em Vale Tudo que encontramos o drama típico da filha que sente vergonha da mãe pobre e humilde, presente não só em Alma em Suplício mas também em  filmes como Stella Dallas (King Vidor, 1937). O tema foi explorado em folhetins como Lua Cheia de Amor (Ricardo Linhares, 1991), e também em Dona Xepa (1977) e Dancin' Days (1978), ambas de Gilberto Braga. 

Já em Anjo Mau (Cassiano Gabus Mendes em 1976 e Maria Adelaide Amaral em 1997), há o drama ainda mais delicado da filha branca de mãe negra que esconde sua origem, exatamente o drama retratado em Imitação da Vida (Imitation of Life, John M. Stahl em 1934, Douglas Sirk em 1959) com uma filha ingrata que rejeita a mãe negra.


Em Laços de Família (Manoel Carlos, 2000), Vera Fischer faz como Lana Turner em Imitação da Vida e abre mão de seu amor pela felicidade da filha




Em Locomotivas (Cassiano Gabus Mendes, 1977) , as ''irmãs'' Milena (Aracy Balabanian) e Fernanda (Lucélia Santos) disputavam o amor do mesmo homem: Fábio (Walmor Chagas). No final um segredo é revelado:  Milena é na verdade mãe de Fernanda, e ela havia abrido mão de Fábio por causa da filha (novamente semelhante à Imitation of Life). Sabendo dos sentimentos da mãe por Fábio, no final Fernanda convence Milena a voltar para ele, e os dois terminam juntos


A pobre Stella Dallas (Barbara Stanwyck em estado de graça) assiste, de longe, a felicidade da filha e se emociona

Indo mais longe em Dancin' Days, por exemplo, as referências correm soltas. Sônia Braga usou em cena um vestido igual ao de Joan Crawford, desenhado pelo estilista Adrian para o filme Letty Lynton (Clarence Brown, 1932) !


 

Vamos pensar no difícil relacionamento entre as irmãs Júlia (Sônia) e Yolanda (Joana Fomm) e na disputa das duas pelo amor da filha de Júlia, Marisa (Glória Pires). Esse é o mote principal da história, e nele há uma certa semelhança com um filme de Herbert Ross chamado Momento de Decisão (The Turning Point, 1977). Plus o conflito mãe e filha é uma constante até o fim da trama, pois Marisa passa a novela inteira rejeitando Júlia, rendendo cenões entre mãe e filha. Até que a garota insuportável cai na real e amadurece, e enfim as duas fazem as pazes numa cena emocionante.



No maior estilo de Nos Embalos de Sábado à Noite, o retorno triunfal de Júlia na boate Dancin' Days depois de voltar deslumbrante da Europa. No começo da novela ela saiu da prisão depois de 11 anos e determinada a reconquistar a filha Marisa, que foi criada pela sua irmã Yolanda. O conflito das duas irmãs e as desavenças entre mãe e filha são o eixo da trama

No filme não são irmãs, porém amigas, ambas bailarinas, separadas pelo tempo e por constantes desentendimentos. Shirley construiu uma família, enquanto Anne seguiu carreira. O que as une agora é a filha de Shirley, que quer ser bailarina e entra para a companhia de Anne, que logo se torna sua mentora. A amizade das duas é posta à prova, e a rivalidade chega ao ponto das duas se estapearem no clímax do filme, igual fazem Júlia e Yolanda no final de Dancin' Days. Depois de tantos desentendimentos, as duas amigas do filme e as duas irmãs da novela fazem as pazes, afinal o que elas mais querem é a felicidade da garota que elas tanto amam. 

Dancin' Days também está disponível em DVD, além de estar completa por aí na internet.

Júlia e Yolanda se reconciliam ao som de Amanhã de Guilherme Arantes

As duas amigas assistem o sucesso da jovem bailarina em Momento de Decisão

E ainda falando de Gilberto Braga, um de meus autores preferidos, ainda falta uma novela importante dele para comentar.


CELEBRIDADE (Gilberto Braga, 2003) x A MALVADA (Joseph L. Mankiewicz, 1950)

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Apertem os cintos, essas são obras turbulentas! Foi inspirado em A Malvada que Gilberto criou a novela que tinha como protagonista a produtora musical de sucesso Maria Clara (Malu Mader), e como vilã a ardilosa Laura (Cláudia Abreu) que primeiro conquista a confiança de Maria Clara para então traí-la e usurpar seus bens e sua fama. Nada longe da sórdida Eve Harrington que conquista a simpatia da estrela Margo Channing (Bette Davis em seu papel mais icônico) para então roubar seu lugar de destaque nos palcos e conquistar a fama com que sempre sonhou (e se possível, até o seu homem).


 Ao contrário das atrizes burrinhas da TV e dos ingênuos que acham que é Bette Davis ''a malvada'' do título, é Anne Baxter quem lacra totalmente na pele da invejosa Eve


A novela continha cenas e diálogos muito semelhantes aos do filme de 1950, e pensando nos dias atuais, foi uma das primeiras a criticar as subcelebridades e os que querem fama a qualquer preço


No filme, Margo é boa demais para se deixar abater pelas armações de Eve, e quer acima de tudo viver feliz com seu amado Bill (Gary Merrill), o qual Eve fracassa em querer tomar para si. Resta a Eve apenas sua fama artificial e ''troféus para colocar no lugar do coração''. Margo é uma verdadeira mulher badass talentosa e espirituosa, enquanto Eve é fria, falsa e só conquistou seus quinze minutos de fama passando por cima dos outros. Como já disse Miguel Falabella uma vez, se não me engano, algo do tipo ''o mundo não é mais das Margos, e sim das Eves''. Infelizmente ele tem razão. Faltam Margos no mundo atual.




Na novela, Maria Clara tenta se reerguer, reconquistar o espaço que lhe foi tomado por Laura e desmascará-la. O dia em que Maria Clara meteu 27 tapas na cara de Laura entrou para a história. A cena remeteu a um outro folhetim de Gilberto: Água Viva (1980), quando Lígia (Betty Faria) deu uma surra em Selma (Tamara Taxman) no banheiro do Canecão. 





A FAVORITA (João Emanuel Carneiro, 2008) x O QUE TERÁ ACONTECIDO À BABY JANE? (Robert Aldrich, 1964)

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A rivalidade entre duas mulheres que foram criadas juntas, se tornaram famosas e viram uma tragédia mudar a vida delas para sempre. Estou falando da novela ou do filme? Os dois!

Com um ritmo frenético e reviravoltas alucinantes, A Favorita foi uma novela que inovou em muitas coisas o folhetim. Por quase dois meses ficamos na dúvida sobre quem era a mocinha e a vilã: Flora (Patricia Pillar) ou Donatela (Cláudia Raia), antigas cantoras da dupla sertaneja Faísca e Espoleta. No decorrer da trama é revelado que Flora é a verdadeira assassina de Marcelo, o antigo marido de Donatela e que era amante de Flora. Por inveja da ex-parceira de dupla, que largou a dupla para viver com seu amor Marcelo, Flora cometeu o crime e  acabou condenada. Saindo da prisão, ela consegue virar o jogo a seu favor e colocar a culpa do crime em Donatela, que vai presa mas consegue fugir da prisão ao forjar a própria morte. Caberá agora a ela provar que Flora é de fato a vilã da história. 

A Favorita também foi lançada recentemente em DVD! 


As garotas criadas desde cedo para serem famosas, as mazelas dessa fama e principalmente a eterna rixa entre duas mulheres lembra em muito o clássico estrelado por Bette Davis e Joan Crawford. Mesmo não sendo irmãs como no filme, mas de criação, Flora e Donatela têm cada uma sua própria versão da história, o que molda o começo da trama quando não sabemos quem está dizendo de fato a verdade. No filme a ordem é um pouco inversa: a princípio Jane soa como a vilã mais óbvia com todas as suas maldades, cansada de cuidar da irmã que acredita ter tornado paraplégica num fatídico acidente, além de sonhar com um retorno da carreira longínqua (como Flora querendo voltar com a dupla). Mas ao longo da projeção fica claro que nenhuma das duas é santa, e na revelação final de Blanche isso é nítido. Assim como Flora mostra que não é quem parecia ser, Blanche também se mostra igualmente dissimulada. Donatela, mesmo não perfeita, acaba mais como uma heroína sofrida. Jane, grotesca e por vezes diabólica, foi também uma vítima das circunstâncias e se tornou uma paródia de si mesma. No fim, tanto na novela como no filme, elas poderia ter sido amigas desde o começo. O destino é cruel.





E é isso, minha gente. Claro que tudo isso é só uma parcela das várias possibilidades de diálogo entre cinema e TV, então caso você que leu e sentiu falta de algum caso específico, comente! 

Menção honrosa aos meus amigos do Facebook e cia, maiores noveleiros que você respeita e que colaboraram para a elaboração desse post: Geovanna Ferreira, Leonardo Baricala, Stephanie Leigh, Sylvio Ribeiro, Fernando Sobrinho, Elisa Macahyba, Marcelo Kundera (esse direto dos Kundera de Top Model! rs), Andrei Israel, Caíque Furlaneto Saraceni, Júlia Vasconcellos, e um beijo para as queridas Rafaella Britto do site Império Retrô e Thaís Maurelli do Lady Hollywood. <3 

Gosto muito das novelas que mencionei, principalmente as mais antigas que tive o grande prazer de assistir, na íntegra ou por partes. As novelas atuais precisam se inspirar mais no que já foram antigamente, no que diz respeito à qualidade do texto e dos grandes atores de antigamente, ao invés dos ''modelos'' de hoje em dia e produções sem graça. E principalmente: o gênero precisa se reinventar. 

Deixo claro que cinema é e sempre será minha paixão maior, e apesar de gostar muito de televisão (estou revivendo nos últimos tempos o meu amor pela TV, a qual desde que eu era pequeno eu vivia pesquisando na internet e em almanaques), concordo com quem diz que a TV tem muito a se inspirar na profundidade dos grandes filmes - ao invés de apelar às soluções fáceis e ao sentimentalismo barato, apostar mais na multiplicidade de sentido e de possibilidades de interpretação que caracterizam as grandes obras-primas cinematográficas. Nesse aspecto, a teledramaturgia tem muito no que se inspirar no cinema. 

Bye Bye, Brasil!