quarta-feira, 9 de novembro de 2016

PERSONA, por Clarice Lispector


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Não, não pretendo falar do filme de Bergman. Também emudeci ao sentir o dilaceramento de culpa de uma mulher que odeia seu filho, e por quem este sente um grande amor. A mudez que a mulher escolheu para viver a sua culpa: não quis falar, o que aliviaria o seu sofrimento, mas calar-se para sempre como castigo. Nem quero falar da enfermeira que, se a princípio tinha a vida assegurada pelo futuro marido e filhos, absorve no entanto a personalidade da que escolhera o silêncio, transforma-se numa mulher que não quer nada e quer tudo – e o nada o que é? e o tudo o que é? Sei, oh sei que a humanidade se extravasou desde que apareceu o primeiro homem. Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não quero dizer. Também não vou chamar Bergman de genial. Nós, sim, é que não somos geniais. Nós que não soubemos nos apossar da única coisa completa que nos é dada ao nascimento: o gênio da vida.



Vou falar da palavra pessoa, que persona lembra. Acho que aprendi o que vou contar com meu pai. Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo: é, ele é uma pessoa. Até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem. Obrigada por ter desde cedo me ensinado a distinguir entre os que realmente nascem, vivem e morrem, daqueles que, como gente, não são pessoas.

Persona. Tenho pouca memória, por isso já não sei se era no antigo teatro grego que os atores, antes de entrar em cena, pregavam ao rosto uma máscara que representava pela expressão o que o papel de cada um deles iria exprimir. Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde. Por que então me agrada tanto a idéia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem sabe , eu acho que a máscara é um dar-se tão importante quanto o dar-se pela dor do rosto. Inclusive os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. É a hora da escolha.



Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego – uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível. É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é. Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar.


É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem como um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer “esta é uma pessoa”. Como pessoa teve que passar pelo caminho de Cristo.

C.L.




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lauren Bacall, A Mulher Fenomenal





Depois de milênios enrolando, desnaufraguei do chorume e vou falar um pouco sobre uma das rainhas da minha vida: Lauren Bacall ♥ LET'S GO!

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Betty Joan Perske nasceu em Nova York em 1924, no bairro do Bronx. Betty (seu verdadeiro nome, e como os mais íntimos sempre a chamaram) teve uma infância humilde mas feliz, pois tinha uma família querida que a amava muito, em especial sempre teve uma relação muito próxima com a sua mãe Natalie Weinstein-Bacal, imigrante da Romênia e que depois mudaria seu nome para a forma original, que sua filha também adotaria: Bacall. Seu pai, William Perske, era de Nova York e trabalhava com vendas, mas acabou se divorciando de Natalie quando Betty tinha cinco anos, e pouco esteve presente na vida da filha depois disso. Natalie e Betty ficaram muito próximas a vida inteira.

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A vida de Betty sempre foi marcada pela arte, em especial o cinema. Na sua autobiografia de sucesso By Myself (traduzida aqui como BACALL FENOMENAL rs) ela dizia que matava aulas para ir ao cinema, em especial ver filmes da sua maior inspiração de vida: Bette Davis. Ela assistia os filmes de Bette em loop, sabendo todas as falas de cor, e era tamanho o seu fascínio por Davis que a jovem Betty decidiu que queria ser atriz. Já uma adolescente, ela começou a correr atrás do seu sonho, e no seu livro ela relata em detalhes toda a saga que ela passou até chegar ao cinema.

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Um de seus quotes mais famosos falava que ''a imaginação é a pipa que pode voar mais alto''. Mesmo com uma família que a amava muito, a vida era bastante comum e humilde, sem grandes perspectivas para uma garota sonhadora que sonhava em ser atriz, e não apenas um rostinho bonito atrás de fama e glamour - ela queria ser uma grande atriz, como Bette Davis era. Sua mãe e sua avó naturalmente viam para ela apenas o futuro de uma garota judia ''respeitável'': arranjar um emprego e logo mais um marido (também judeu). Mas determinada a ser uma atriz, Bacall resolveu ir atrás da grande oportunidade, e Deus, como ela lutou para conseguir a grande chance. Lendo o livro você fica a todo momento torcendo para ela conseguir, e Bacall tinha uma memória incrível, lembrava de todos os nomes e de tudo nos mínimos detalhes! 


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O foco inicial de Betty não foi necessariamente o cinema. Para se tornar uma atriz ela decidiu que deveria focar primeiro no teatro, e conseguir aprender tudo o que podia para então conseguir seu lugar nas telas do cinema. A jovem Bacall passou por poucas e boas nessa época, seguindo o roteiro de aspirante a atriz: ela passava dias inteiros indo de teatro em teatro atrás de emprego, de escritório em escritório, fez inúmeros testes e aulas de teatro. Apesar de ainda não ter conseguido o seu grande momento de estrela, muitos já notavam que a jovem tinha sim muito potencial, conseguiu conquistar a atenção do pessoal do teatro, e também de atores que ela admirava muito, como Paul Lukas, Danny Kaye e o saudoso Gregory Peck, que viria a ser seu grande amigo a vida inteira. Todos encorajaram a moça a seguir o seu sonho. Nesse tempo, Bacall tinha aulas de teatro e trabalhava como ''lanterninha'' no teatro e depois como modelo, além de sair com Kirk Douglas, também estudante de teatro na época. Apesar dos encontros eles se mantiveram amigos por toda a vida, e Betty sempre dizia que tinha um crush pelo colega de profissão. 

Ainda nessa época, ela e uma amiga conseguiram uma chance única: conhecer Bette Davis pessoalmente! As duas foram até o apartamento onde ela estava em Nova York e conversaram brevemente com a atriz, que foi bastante simpática com elas e disse que se Betty queria ser uma atriz deveria trabalhar duro. As garotas ficaram tão gratas pela recepção que escreveram para Bette e ela gentilmente respondeu as duas, e disse para Betty: ''Espero que nos reencontremos''. Sim, elas se reencontrariam :)



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No meio da correria em busca da sua grande chance nos palcos, Betty fez sua estreia na Broadway, ainda tímida, na peça Johnny 2x4. Chegou a seguir turnê com o teatro, mas o projeto não foi muito para a frente, além de ter sido bastante cogitada para estrelar a peça Claudia, que acabou ficando para a ainda estreante Dorothy McGuire, a qual também viria a se tornar uma estrela de Hollywood na mesma época. 

A primeira vez que Betty atraiu os holofotes para si foi durante sua breve carreira de modelo, num famoso ensaio para a Harper's Bazaar em 1943 que se tornou icônico. A bela desconhecida do público chamou a atenção, principalmente de ninguém menos do que Howard Hawks, diretor de clássicos como Levada da Breca, O Paraíso Infernal, Scarface e Jejum de Amor. 

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Hawks pediu para sua secretária tentar descobrir mais sobre a garota, mas a secretária acabou convocando Betty já para um teste em Hollywood! E lá foram Betty Bacall e sua mãe para a Califórnia ensolarada. Com apenas 19 anos, a garota do Brooklyn assinou seu primeiro contrato e iria fazer parte do elenco do novo filme de Hawks: Uma Aventura na Martinica (To Have and Have Not, 1944), baseado numa história original de Ernest Hemingway (que viria a ser amigo do casal Bogart depois). Slim Hawks, esposa de Howard, foi a grande assistente da jovem naquele novo universo do Hollywood, e ensinou tudo a ela. Betty então mudou seu primeiro nome para Lauren e pegou o Bacall da sua mãe e assim nascia Lauren Bacall. 




(Betty com Howard Hawks)



(Testes de Betty, ainda com seu nome verdadeiro)

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Lauren era bastante tímida, e ainda estava aprendendo a trabalhar no set de filmagem. Seu nervosismo era tanto que não conseguia parar de tremer. Então ela inventou um truque: ela abaixava a cabeça, colocando o queixo contra o peito, e então encarava a câmera com os olhos para cima. Isso acabou virando sua marca registrada e ficou conhecido como ''The Look''. Junto ao seu look fatal, ela ficou marcada pela sua voz rouca e sensual.


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O furacão Bacall estava a todo vapor, e foram apenas algumas semanas de filmagem para ficar evidente para todos a química explosiva de Lauren com seu companheiro de cena, Humphrey Bogart, que era a estrela do filme. Sempre em entrevistas Bacall costumava dizer que até então nunca havia dado grande atenção a Bogart - sempre o achou um grande ator, mas o homem dos seus sonhos sempre esteve mais para Cary Grant. Porém Lauren e Bogart se apaixonaram, e começava ali uma das histórias de amor mais marcantes do cinema. Na opinião de quem vos escreve, é o casal mais lindo dos filmes ♥ E claro, o filme é maravilhoso, um dos melhores exemplares de clássico dos anos 40, uma espécie de Casablanca mais lascivo, mistura perfeita de aventura, guerra, drama e muito romance com várias cenas quentes e diálogos mordazes por parte dos dois pombinhos - obrigatório para qualquer cinéfilo que se preze. Hawks nunca decepciona, ainda mais com Bogie e Bacall!

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Nem tudo foram flores, obviamente. Os dois começaram um romance, e a diferença de idade de quase 25 anos não foi nenhum empecilho, mas Bogart era casado com a atriz Mayo Methot. O casamento estava indo de mal a pior, e Mayo era notória por suas bebedeiras e escândalos, especialmente durante as brigas com Bogart; o divórcio não seria fácil. Foi cada vez mais difícil esconder o relacionamento dos dois, para a fúria de Howard Hawks que estava vendo sua nova estrela fugir de suas mãos. Os dois eram a alma do filme, o que fez Bacall ganhar cada vez mais espaço no filme no papel da garota Slim (nome dado por causa da esposa de Howard, enquanto o ''Steve'' de Bogart era o apelido de Hawks). Uma das cenas mais famosas do filme, numa atmosfera extremamente sensual, é quando Slim fala para Steve: Se precisar de mim é só assobiar. Você sabe como assobiar, não é Steve? Apenas junte os seus lábios e sopre''. 


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O filme veio como um meteoro e lançou o nome de Lauren Bacall direto ao estrelato, tudo muito rápido para uma garota de 20 anos, e sua performance no filme acabou virando sua marca registrada, figura marcante no cinema, na cultura popular e na moda. A paródia mais famosa é do desenho Bacall to Arms, de 1946:






A Warner Brothers resolveu investir em peso na nova estrela, numa maciça campanha de marketing para promove-la e divulgar o novo filme. Num dos momentos mais marcantes de sua carreira, Bacall se encontrou com o então vice-presidente dos Estados Unidos, Harry Truman. Para chamar a atenção, pediram para Bacall subir no piano e ela inocentemente topou e até hoje é uma de suas fotos mais famosas e ficou na boca do povo por muito tempo - ela costumava receber essa foto frequentemente para ser autografada.



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Bacall teve que aprender a se impor perante ao estúdio e tomar as rédeas de sua carreira não da forma mais fácil. Logo após o estrondoso sucesso de To Have and Have Not, Bacall foi escalada para contracenar com Charles Boyer no filme Confidential Agent (Quando os Destinos se Cruzam, 1945). Apesar de adorar o colega de cena, Bacall se sentiu completamente perdida nas mãos do diretor Herman Shumlin, que não entendia nada de direção, bem distante do trabalho de Howard Hawks e longe do seu querido Bogart em cena. O filme foi um fracasso e as críticas, que até outro dia a aclamaram como a nova grande atriz do cinema, agora a destruíam e diziam que sua carreira já estava arruinada. Foi um baque para Lauren, que decidiu nunca mais seguir as ordens do estúdio e só iria atuar nos roteiros que a agradassem, e chegou a ser sucessivamente suspensa pela sua ''rebeldia''. Chegou a recusar papéis em filmes como Romance in the High Seas (primeiro filme de Doris Day) e Stallion Road (que ficou para Alexis Smith).


O papel que viria depois foi bem mais feliz: Bacall foi novamente escalada para contracenar com Humphrey Bogart no clássico do cinema noir The Big Sleep (À Beira do Abismo, 1946), também sob a batuta do diretor Howark Hawks. Dando vida à ácida e misteriosa Vivian, Bacall emplacou de vez seu nome como grande ícone do cinema noir e conseguiu dar um UP na carreira da atriz que tinha ficado comprometida depois do fracasso de Confidential Agent. Afinal toda carreira tem altos e baixos e atire a primeira pedra o ator que nunca fez um chorume do pântano, risos.



The Big Sleep é um filme tão envolvente que nós até relevamos o plot completamente nonsense e mindfuck que ninguém da produção conseguiu entender direito (LOL). Novamente, e como sempre viria a ser, os dois colocavam a tela em chamas! E assim o romance de Betty com Bogart foi ficando cada vez mais sério. 




Muitas vezes eles tinham que se encontrar às escondidas, despistando a imprensa para evitar escândalos, principalmente com relação à Mayo, mulher de Bogart. Bacall pôde conhecer Bogie mais a fundo, principalmente para além daquela superfície de homem durão que todos viam nos seus filmes de gângster e de mistério. No fundo, ela reconheceu sua alma gentil e conheceu a fundo quem seria o homem de sua vida. 


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Até então, Bogie havia vivido um período difícil, de muitas frustrações, e apesar que Mayo estivesse longe de ser uma má pessoa, ela era muito frustrada por não ser mais uma atriz consagrada que já havia sido um dia, ao contrário do marido. Ele tinha um temperamento difícil e explodia; ela era extremamente ciumenta e descontava tudo na bebida, e ele também; assim os dois ficaram conhecidos como ''Battling Bogarts''! O casamento deles já estava insustentável, e depois de um tempo conseguiram fazer com que Mayo fosse até a cidade de Reno e aceitasse o divórcio. Mayo se afastou dos holofotes e faleceu em 1951, em decorrência do alcoolismo, aos 47 anos.




No dia 21 de maio de 1945, Bogart e Bacall se casaram numa cerimônia simples com os mais íntimos, na fazenda de um amigo de Bogart em Ohio. Era nítida nos dois a grande felicidade em finalmente selarem aquela união, e tamanha era a profundidade com que cada um olhava no fundo dos olhos do outro. Bogart, que sempre é lembrado pela cara de durão, estava todo sorrisos, e Betty recorda que foi um dos momentos mais felizes de toda a sua vida. Se sentia até patética, ria de como era ingênua na juventude, mas pelo visto amar e se sentir amado era assim mesmo. 


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Bacall e Bogart estrelaram mais dois filmes juntos: Dark Passage (Prisioneiro do Passado, 1947) e Key Largo (Paixões em Fúria, 1948). No primeiro, um filme noir passado em São Francisco, Bogie é um fugitivo que resolve fazer uma plástica no rosto para não ser mais reconhecido, e antes da operação o filme não mostra o rosto de Bogart - até esse momento do filme, eles fazem uso da ''câmera subjetiva'' que mostra toda a ação do filme pelos olhos de Bogie. Durante sua trajetória, ele esbarra com uma misteriosa artista vivida por Lauren, que resolve ajuda-lo. 

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É talvez o filme menos lembrado da dupla, mas com certeza vale a conferida! Não só pelos dois, porque é um filme noir muito eficiente sob direção de Delmer Daves, belas interpretações do casal 20, com boas sacadas como a câmera subjetiva, a locação em belas paisagens de São Francisco, outros nomes no elenco como Agnes Moorehead ( mais conhecida por ter feito a bruxa Endora, mãe de Samantha do seriado A Feiticeira) em ótima performance. 




E por fim, mas não menos importante, Bogie e Bacall strike again agora sob direção do fascinante John Huston, amigo pessoal do Bogart, com o qual também fez o excelente O Tesouro de Sierra Madre. O elenco de Key Largo ainda contava com grandes estrelas da época como Lionel Barrymore, Edward G. Robinson e Claire Trevor, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua performance no filme. Retratado na ilha de mesmo nome, na Flórida, o noir vai gradativamente construindo uma tensão entre os personagens, pois o gângster vivido por Robinson os mantem presos na ilha que está prestes a sofrer a ira de um furacão que se aproxima, e quanto mais rápido a tempestade se aproxima, mais inevitável será o embate final entre Robinson e Bogart. Bacall faz maravilhas com o seu papel de filha do proprietário do hotel da ilha adoentado (vivido por Barrymore), e dá maiores dimensões ao papel, que poderia passar batido durante a trama, mas ela consegue brilhar principalmente pelo próprio mérito, numa mistura de ambiguidade e independência. Filmaço!


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(O poster é lindo mas essa foto da Bacall no poster não tem nada a ver com o visual dela no filme, risos)

Anyway, em janeiro de 1949, nasceu o primeiro filho do casal: Stephen. O nome veio do personagem de Bogart de Uma Aventura na Martinica, que os dois haviam estrelado. E em agosto de 1952 , nasceu Leslie, nome em homenagem ao ator Leslie Howard, que havia ajudado Bogie a conseguir seu primeiro grande papel no cinema no filme The Petrified Forest (A Floresta Petrificada, 1936). Uma loucura, mas em tão pouco tempo a garota novaiorquina fez sucesso , viu sua carreira deslanchar, se apaixonou, casou e teve dois filhos! Além das duas crianças, o casal tinha um cachorro de estimação chamado Harvey.

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Mesmo já com uma família, Lauren Bacall foi consolidando cada vez mais seu nome no mundo do cinema. Quando trabalhava, não tinha tanto tempo para os filhos, mas conseguia arranjar brechas entre os trabalhos e não os aceitava quando não achasse que valessem a pena. Aos poucos foi conquistando o rótulo de ''difícil'' por recusar papéis e roteiros que não lhe agradassem, sendo suspensa inúmeras vezes. Mas isso foi uma escolha acertada, pois chegavam os anos 50 e ela soube escolher muito bem os filmes, que foram de sucesso e ajudaram a impulsionar a sua carreira, sem desgastá-la com chorumes e roteiros horríveis. Muitos não eram grandes sucessos ou masterpieces do cinema, mas ela conseguia trabalhar com bons atores e diretores e fazer um bom trabalho. 





Nos anos 50, Bacall teve muitos trabalhos interessantes. Nessa década, foi deixando seus cabelos mais curtos. Em 1950, estrelou o filme Bright Leaf (Cinzas ao Vento) com Gary Cooper e com direção de Michael Curtiz. E ainda em 50, Bacall divide a cena com o antigo amigo Kirk Douglas, agora uma estrela em ascensão, no filme Young Man with a Horn (Êxito Fugaz), biografia de um conturbado músico tocador de trompete. Um filme muito bom, com os melhores momentos sendo os de Kirk com Lauren, que vivem um romance tumultuado durante a película (grande química entre os dois!). 

Esse filme costuma ser lembrado também pelo subtexto homossexual presente na personagem moderna,  independente (e explosiva) de Bacall, e mesmo com os censores alertas e tudo o mais, as tendências lésbicas de sua personagem Amy ficam implícitas. 


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O filme ainda contava com a presença de Doris Day, e até 2014 o trio de atores era um dos poucos exemplares da Era de Ouro de Hollywood que ainda estavam vivos. Hoje Kirk e Doris ainda estão conosco, com 99 e 92 anos respectivamente. 


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Momento Sonia Abrão: Boatos de que Doris não gostou de fazer esse filme porque se sentiu deslocada durante a filmagem, já que Kirk e Bacall eram muito próximos e deixaram ela se sentindo isolada, além de seu papel ter pouco destaque no filme em geral. No fim, Doris e Kirk nunca mostraram grande simpatia um pelo outro. TRETAS!


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Mas voltado para Bacall, em 1953 ela fez um de seus maiores sucessos: Como Agarrar um Milionário (How to Marry a Millionaire). Junto com Marilyn Monroe e Betty Grable, formaram um trio inesquecível num filme muito divertido que vale a pena ser visto. Foi meu primeiro filme da Lauren e ela me conquistou justamente pela elegância e pelo seu estilo ácido e espirituoso, e eu fui ver na época pela Marilyn (que também está uma graça como a atrapalhada Pola), sem falar da querida Betty Grable que também está muito engraçada no filme. Como Agarrar um Milionário foi um grande hit da época e as três funcionam maravilhosamente bem juntas em cena. Tem uma cena engraçada que Bacall se refere a Bogie em um diálogo em que sua personagem fala de sua fascinação por ''aquele sei lá quem de Uma Aventura na África'' (justamente seu marido que estava fazendo esse filme - os dois viajaram juntos com Katharine Hepburn e John Huston para a África para as filmagens de African Queen, que rendeu o Oscar de Melhor Ator para Bogart).





Sobre trabalhar com Marilyn, Lauren recorda que a estrela vivia chegando atrasada e esquecendo as falas em Como Agarrar um Milionário, não apenas por descaso, mas porque se sentia terrivelmente insegura, e então muitas cenas tinham que ser filmadas de novo e de novo. Problemas à parte, Grable e Bacall sempre tentaram deixar a colega à vontade, e Bacall lembra que Marilyn tinha talento, uma presença muito única e sempre foi muito querida com todos à sua volta.


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Tal foi seu sucesso com Como Agarrar um Milionário que Bacall recebeu o convite para colocar sua marca no cimento do Chinese Theatre, uma das maiores honras do cinema. Entretanto, ela resolveu recusar, com o apoio de Bogart, porque ela percebia que  a honra estava cada vez mais banal pois era oferecida para qualquer pessoa que tinha uma grande projeção nos filmes e sem nenhum padrão de seleção. Apesar de já ter feito filmes de sucesso e dado ao público performances marcantes, a atriz ainda não se achava digna e acreditava que ainda chegaria ao patamar artístico desejado, independente de marca no cimento.  O convite nunca mais foi feito a ela e então ela nunca colocou suas mãos e pegadas no pátio. Bogie, entretanto, alguns anos antes aceitou a honra e colocou suas marcas no cimento, com todo o apoio de sua querida Betty. 


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Obviamente, Bogart e Bacall não eram o casal perfeito. Eram pessoas normais, humanas, tinham seus defeitos e qualidades, e assim como sempre pareciam muito felizes e apaixonados, também tinham seus momentos de maior tensão, como qualquer casal. Mas logo que se conheceram, a paixão foi imediata. Mesmo casado e com a grande diferença de idade, Bogart se encantou pela jovem, e ela esqueceu de vez Cary Grant quando se apaixonou por Humphrey Bogart. Bogie era mais velho e mais vivido, transmitiu para Betty tudo o que sabia, como era a realidade não só de Hollywood mas sobre os fatos da vida, muitas coisas que já tinha aprendido e fazia questão de mostrar a ela. Bacall tinha muito estilo, mesmo sendo uma estrela da Old Hollywood ela sempre foi uma personalidade única no meio, tinha opiniões próprias e avançadas para a época, não ia simplesmente com a maré, e com Bogart ela pôde amadurecer muito, assim como ela fez Bogart explorar mais o seu lado afetuoso, ser feliz depois de muitos problemas, viver o amor e a paternidade já numa idade mais avançada e redescobrir coisas da vida que até tinha esquecido, enquanto Bacall ainda as estava descobrindo, e por sinal ela tinha uma excelente pessoa para guiá-la. Mesmo depois da morte de Bogart, tudo o que eles viveram juntos Bacall levaria dentro de si por toda a vida.


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Ao longo dos anos 50, Betty estrelou filmes como O Mundo é das Mulheres (1954), Paixões sem Freios (1955) , Rota Sangrenta (1955) com John Wayne, e especialmente o dramalhão sirkiano Written in the Wind (Palavras ao Vento, 1956).



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O filme se tornou uma referência no cinema do melodrama, talvez um dos melhores exemplares da filmografia de Douglas Sirk: tudo no melhor estilo novelão, com um elenco de ótimos atores como Rock Hudson, Dorothy Malone (magnífica aqui, venceu o Oscar de Atriz Coadjuvante) e Robert Stack - todos eram amigos de Bacall na vida real. Apesar de ter feito sucesso e ser até hoje considerado um filme cult e conceituado, Lauren nunca levou o filme muito a sério, e sempre achou que era tudo uma xaropada over the top - ela e Rock Hudson adoravam tirar sarro do filme. De qualquer forma, não tem como não se deleitar com uma história muito bem contada interpretada por ótimos atores e com uma fotografia esplendorosa! O filme já foi referência até para novelas brasileiras, como Passione. 



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Fatidicamente, Bogart ficou doente. No começo não se sabia o que era, mas após alguns exames (e muita relutância do ator em ir ao médico) se descobriu que ele estava com um câncer no esôfago. O tratamento não foi fácil, e infelizmente foi ficando cada vez mais evidente que ele não teria muito tempo de vida. Talvez a parte mais triste da vida de Betty seja o período da doença e morte de Bogie. Foi necessária uma força sobre-humana para a jovem mulher conseguir seguir em frente diante de um momento tão duro de sua vida: ver o seu grande amor adoecer cada vez mais. Muitos amigos iam sempre visitar o casal, como Frank Sinatra e o casal Spencer Tracy e Katharine Hepburn. Betty cuidava de Bogie com muito carinho e devoção, por mais difícil e desgastante que fosse.



Em 1956, buscando uma forma de se libertar do tormento da doença de Bogie, Bacall aceita contracenar com seu amigo Gregory Peck na divertida comédia Designing Woman (Teu Nome é Mulher), dirigida por Vincente Minnelli. 



Com amigos e numa produção descontraída que conseguiu explorar mais o seu timing cômico, depois de tantos dramas, fez muito bem para Lauren espairecer frente a tanto sofrimento dentro de casa. Foi uma experiência muito boa para ela, e talvez o último grande filme que ela fez durante a Old Hollywood, que já estava nos seus últimos dias com a chegada dos anos 60. Peck e Bacall se reencontrariam novamente em cena no filme para televisão The Portrait, em 1993.




Bogart faleceu em janeiro de 1957, aos 57 anos. Katharine Hepburn lembra quando o viu pela última vez, já bastante debilitado, quando foi visitá-lo com Spencer Tracy:

''Spence deu-lhe um tapinha no ombro e disse: - Boa noite, Bogie. Bogie virou os olhos para Spence muito discretamente e com um sorriso doce cobriu a mão de Spence com a sua e disse: - Adeus, Spence. O coração de Spence parou. Ele entendeu.''


Bogie foi enterrado junto com um apito amarelo que vinha no bracelete que ele deu para Betty antes do casamento deles. Fazendo referência à famosa cena de To Have and Have Not, a inscrição do bracelete era: ''Se precisar de alguma coisa, basta assobiar''. 



Foi um golpe muito duro para todos, especialmente para Bacall e para as crianças. Depois da morte de Bogart, que até então tinha sido tudo para ela, ela foi vendo a vida como ela conhecia desabar. Desorientada e tentando tomar as rédeas da sua vida, agora sozinha e ainda uma mulher jovem, ela viu que não seria fácil. A partir desse momento, Lauren Bacall vai aos poucos encontrando o rumo da sua vida, agora não mais como a Sra. Bogart, como acabou conhecida por todos, mas agora seguir por si mesma, agora como Miss Bacall. 




Bogart foi seu grande amor, e sempre teria um lugar especial no seu coração, mas era hora de seguir em frente. E apesar de terem feito um belo par, a atriz saberia mostrar nos anos seguintes que era uma artista por si só, sem ficar apenas na sombra de Bogart. 

Após a morte de Bogie, Betty estrelou o filme The Gift of Love (A Angústia de Tua Ausência ,nome conveniente para o momento) em 1958 com seu amigo Robert Stack, e o hit North West Frontier no ano seguinte. The Gift of Love era um remake do clássico Sentimental Journey, dos anos 40, com Maureen O'Hara e John Payne (o mesmo casal protagonista de Milagre na Rua 34).



Pouco depois da morte de Bogie, Bacall começou a se relacionar com Frank Sinatra. Blue Eyes também não estava passando por um momento fácil, e eles já eram amigos há bastante tempo, então o relacionamento foi ficando mais sério - aparentemente. Frank era um famoso mulherengo, com relacionamentos tempestuosos como com Ava Gardner, e como poderia ser um homem muito carinhoso e gentil, também poderia ser muito rude e temperamental. Betty, um tanto perdida depois da morte de Bogart e tentando se encontrar, procurou se agarrar ao relacionamento com Sinatra, mas ele parecia não ter os mesmos planos. Até que chegou um momento em que eles ficaram noivos! Porém, o relacionamento não foi para frente, e pouco depois Frank resolveu desmanchar o noivado porque a notícia vazou para a imprensa e ele não queria mais saber de nada. Frank era um grande artista, sabia ser um cara legal, mas também sabia ser bem otário às vezes. Ele fez Betty criar expectativas, a enrolou, por vezes tratou ela muito mal e por fim a largou assim sem mais nem menos, sempre pensando apenas em si mesmo. No fim, acabou sendo o melhor para os dois cada um seguir com a sua vida... Que ficassem as lembranças anteriores durante a época de Bogart e da Rat Pack.



Momento Sonia Abrão parte 2: Uma vez, anos antes, Betty viveu uma situação cômica com Frank, quando ele estava com Ava Gardner. Frank pediu para Betty levar um bolo de coco para Ava, como uma forma de fazer as pazes pois eles estavam brigados. Bacall, aproveitando uma viagem que fazia, foi até o set de filmagem onde Ava trabalhava para deixar o bolo, depois de quase dois dias indo de lá para cá com o famigerado bolo de coco que estava prestes a estragar. Por fim, se sentindo awkward no meio de estranhos, ela chegou até Ava no estúdio e disse que tinha um bolo que Frank havia mandado, achando que ela gostaria. Ava simplesmente mandou ela deixar numa mesa que ela indicou, e mais nada, nenhum obrigado. Na verdade Ava foi rude por causa de Frank, pois naquela altura o relacionamento dos dois já havia naufragado, e ela não queria saber de mais nada. Bacall ficou furiosa na época por ter sido feita de idiota por carregar um bolo por dias na Europa, mas depois ela e Ava puderam se conhecer melhor e tudo correu bem depois.




Enfim, Hollywood já não era mais a mesma. Muitos amigos de Bacall já haviam morrido, se mudado ou cada um tentava se adaptar aos novos tempos. Não havia mais tanto espaço para as estrelas de outrora, e as ofertas de emprego para Betty estavam cada vez mais escassas. Ela acabou saindo da Warner, estúdio onde havia trabalhado por tantos anos, com certo ressentimento pois depois de tanto trabalho duro que deu para aqueles estúdios, pouco reconhecimento foi dado, sem falar da certa ingratidão para as estrelas que tanto deram lucro para os estúdios estarem agora sendo simplesmente descartadas. Betty fez poucos filmes nessa época, muitos apenas como coadjuvante, como em Médica Bonita e Solteira (Sex and the Single Girl, 1964) ao lado de Henry Fonda, Natalie Wood e Tony Curtis.


Os anos 60 foram decisivos para Lauren, e depois de ter vivido muitos momentos felizes na Califórnia, ela decide se mudar definitivamente com sua família para Nova York. Mais especificamente para o seu apartamento no Edifício Dakota, famoso prédio que também foi cenário para O Bebê de Rosemary e também foi onde John Lennon morou. Lá Bacall ficou até o fim da vida. 

Nos anos 60, a atriz conheceu e se casou com o também ator Jason Robards (um dos maiores de sua geração), e juntos tiveram um filho: Sam Robards, que trouxe alegria para um casamento tão conturbado. A relação durou apenas alguns anos, principalmente devido ao alcoolismo de Jason. Ele e Bacall tiveram momentos de alegria, mas quando Jason bebia ele se transformava em outra pessoa, e trouxe muitos momentos de tensão e desgaste para ambos, principalmente para ele mesmo, a ponto de não ter mais controle sobre a própria vida. Depois Jason conseguiu finalmente se livrar da bebida, e após o divórcio os dois continuaram amigos e nutrindo admiração um pelo outro. Jason sempre esteve presente na vida do filho Sam.





A partir desse período, Betty inicia um recomeço em sua carreira e em sua vida. Parecia novamente que ela tinha que correr atrás de seu novo grande momento, e ela ia conseguir! E seria justamente onde ela começou: no teatro.




Apesar de ter se consagrado como estrela de cinema, acho que foi no teatro onde Lauren Bacall se realizou profissionalmente por completo! Ela sempre perseguiu uma carreira no teatro, mas o cinema e o relacionamento com Bogart vieram tão rápido que ela se dedicou eles de corpo e alma, mas agora numa espécie de hiato ela resgatou seu amor pelo teatro e resolveu se dedicar a ele para enfim conseguir se tornar a atriz que queria ser. Os sucessos no cinema trouxeram muita satisfação, mas até aquele momento ela nunca havia sido levada tão a sério como atriz. Muitos a viam apenas como a mulher de Bogart, mas ela era mais do que isso, e iria provar - nos palcos. 

Em 1959, Bacall estreou na Broadway na comédia Goodbye Charlie, e trazia a atriz num papel muito divertido como um homem que voltava à vida mas no corpo de uma mulher. A história virou um filme de mesmo nome depois com Tony Curtis e Debbie Reynolds. E com muito sucesso, Betty estrelou a montagem de Cactus Flower em 1965, no mesmo papel que foi de Ingrid Bergman na versão pro cinema - uma secretária austera que é apaixonada pelo patrão e vai aos poucos desabrochando e se soltando para a vida. Além de estar fazendo sucesso, Bacall podia exercitar sua veia cômica, crescer como atriz e ainda se divertir como nunca. Seu nome virava figura cada vez mais frequente nos letreiros dos teatros.

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Mas o seu maior sucesso no teatro veio em 1970, com o musical de sucesso Applause. O espetáculo era uma versão musical de A Malvada (All About Eve, 1950), justo o filme da sua estrela favorita: Bette Davis. Betty agarrou essa oportunidade ao máximo e se esforçou como nunca para fazer um bom trabalho. Além de atuar, ela teria que cantar e dançar, e durante uma longa temporada. Sua voz rouca era a marca registrada, e mesmo que não se enquadrasse no estilo padrão de musicais, ela transcendeu as dificuldades e conseguiu fazer uma performance magnífica como Margo Channing, tão ácida e sagaz quanto a de Bette, mas com muita vivacidade e alegria de viver como o espírito do musical exigia. Mesmo que Lauren não tivesse a melhor das vozes, ela fez um excelente trabalho e virou a alma desse musical, que virou um grande hit da Broadway e ficou em cartaz por muito tempo. Depois de uma longa temporada, Bacall deu lugar para outras atrizes viverem Margo Channing, com também ótimos desempenhos, como Anne Baxter (sim, a Eve Harrington do filme agora era Margo!), Eleanor Parker e Arlene Dahl. 






(Feliz da vida em Applause)



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(Anne Baxter)


Num momento triunfal de sua carreira, ela venceu o Tony Awards por seu desempenho em Applause, mas o maior reconhecimento veio da Deusa. Isso mesmo, Bette Davis em pessoa foi até o camarim de Lauren saudá-la pelo belo trabalho e disse que ninguém mais poderia ter feito o papel como ela! 



(Walter Matthau lhe entrega o Tony Awards)

Depois dessa ela não precisava de mais nada... Mentira. O show tem que continuar, e não para por aqui ! Em 1981 ela estrelou o musical Woman of The Year , baseado no filme de Kate Hepburn e Spence Tracy, e novamente venceu o Tony de Melhor Atriz.




Uma mulher linda, independente, dona de si, acertava como ninguém e também sabia rir e aprender com os próprios erros. Lauren Bacall havia conseguido o êxito nos palcos que sempre havia sonhado. E depois de ter passado por tantos momentos, bons e ruins, renasceu das cinzas e finalmente mostrou ao mundo todo o seu potencial, e mesmo que o Chinese Theatre não lhe desse nova honra, ela conseguia enfim se tornar a atriz completa que sempre quis ser. Não apenas realizada no campo profissional, pois tinha três lindos filhos que havia criado praticamente sozinha por muito tempo e depois de Jason nunca mais se casou - estava em paz consigo mesma, e feliz. Com uma história de vida agitada e com tanto para contar, procurando entender mais a si mesma através de sua trajetória, em 1978 Lauren lançou sua autobiografia By Myself, que foi sucesso mundial. Aos interessados na vida não só da atriz, mas da mulher Bacall, vale muito a leitura. Garanto que você não vai conseguir parar de ler até o fim. Depois nos anos 90 ela lançou outra biografia, intitulada Now, e em 2005 ela relançou sua primeira biografia mas com um capítulo extra, e intitulou de By Myself and Then Some. 




Mesmo com a consagração no teatro, Betty não abandonou o cinema. Continuou fazendo trabalhos ocasionais, mas não menos importantes. Nos anos 70 se uniu ao elenco estrelar de Assassinato no Expresso do Oriente e também contracenou com John Wayne no faroeste The Shootist, que acabou sendo o último filme do Duke dos westerns americanos. Apesar de óbvia divergência ideológica e política de Wayne e Bacall ( um era o grande representante do conservadorismo, a outra sempre tinha sido uma democrata de mente aberta), os dois viraram bons amigos.



E aproveito o gancho para falar de um dos pontos mais legais da vida de Bacall: ela foi durante toda a sua vida uma pessoa liberal e democrata. A maior polêmica política em que se envolveu foi ainda quando era casada com Bogart, nos anos 40, durante a caça às bruxas que estava acontecendo durante o macarthismo. Bogie e Bacall, junto com outros artistas da época, foram até Washington protestar contra a perseguição política que estava havendo contra os artistas - muitos entraram na lista negra de Hollywood, foram perseguidos e tiveram suas vidas arruinadas. Depois o casal infelizmente teve que recuar devido à repercussão negativa do ato, pois começaram a alegar que eles eram comunistas por estarem defendendo a liberdade e a democracia, mas de qualquer forma o protesto foi bastante simbólico.




Numa entrevista ela chegou a dizer que era ''anti-republicana'', e era Liberal com letra maiúscula, ''the L world''. Segundo ela, ser democrata era a melhor coisa que uma pessoa poderia ser; você estava se abrindo e dando boas-vindas para o mundo, evitando ter uma mente pequena. Uma rainha é uma rainha, né mores? ♥




Nos anos 80, fez filmes como o thriller O Fã de 1981 (sobre um fã que passa a stalkeá-la, claramente história da minha vida RISOS e ainda temos um belo número musical com a deusa num vestido preto de paetês cantando I Need Hearts, Not Diamonds) e uma participação no thriller Louca Obsessão (1990), com Kathy Bates e James Caan. 


Michael Biehn faz um fã obsessivo por um estrela vivida por Bacall em The Fan (1981)


Mas um grande momento de sua carreira mais avançada foi no filme O Espelho Tem Duas Faces, de 1996, dirigido pela diva Barbra Streisand. Mesmo que num papel menor, Bacall teve a chance de brilhar num papel à sua altura, e conquistou finalmente depois de tantos anos uma indicação ao Oscar, já com 70 anos. Era a favorita da noite, mas acabou perdendo para Juliette Binoche pelo filme O Paciente Inglês. Independente de Oscar, Bacall estava deslumbrante no filme e roubou a cena. No fim, ela soube ir se ajustando aos novos tempos sem perder o brilho e sua personalidade tão única.



No Oscar daquele ano, com Kevin Spacey (um dos seus queridinhos da atualidade)

Nos anos 2000, mesmo com convites menos frequentes, Lauren foi se alternando em produções diversas, desde dublagens de animações como na versão em inglês de O Castelo Animado, de Hayao Miyazaki do Studio Ghibli, até produções mais desafiadoras e independentes como Dogville e Manderlay, de Lars von Trier. Totalmente diferente do que já havia feito, Bacall sempre soube se reinventar, gostou muito da experiência, e só tinha elogios para o controverso diretor: ''muito excitante''. 







Bacall pôde trabalhar com Nicole Kidman, além de Dogville, no filme independente Birth, de 2004. As duas tinham muita admiração uma pela outra.


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O reconhecimento da Academia foi tardio, mas aconteceu: em 2009 Betty Bacall foi finalmente agraciada com um Oscar Honorário por sua fabulosa contribuição para as artes cinematográficas. Sempre bem humorada, quando pegou no Oscar, sua primeira fala foi ''Um homem, até que enfim!''. Quem introduziu e deu o prêmio para ela foi sua amiga de longa data, a atriz Anjelica Huston, filha do também querido amigo John Huston.




Mesmo com as propostas de trabalho cada vez mais escassas, e com a saúde cada vez mais debilitada, Betty Bacall continuou trabalhando até o fim de seus dias. Nos últimos anos, ela arranjou uma linda cachorrinha chamada Sophie, que a acompanha em todos os lugares! Ela se apegou tanto a cachorra que deixou uma boa parcela de sua herança para ela. :3


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Tem no youtube um vídeo impagável da Glenn Close indo visitar a Lauren e mostrando a cachorrinha dela, assistam! 



E então, no fatídico 12 de agosto de 2014, apenas cinco semanas para completar 90 anos, Lauren Bacall atendeu ao assobio de Bogart e partiu, para enfim nunca mais sair de seus braços, provavelmente a esperando com o whisky e com o cigarro. Cheguei até a escrever uma carta-tributo para ela quando estreei o blog em 2014, caso se interessem ainda está aqui no site. Mas depois de dois anos, tenho cada vez mais certeza de que a pessoa nos deixa apenas fisicamente, pois espiritualmente ela é eterna, especialmente quando ela ocupa um lugar especial nos nossos corações através de tanta alegria e inspiração que nos traz através de seu trabalho e de sua história de vida. Lauren Bacall, a mulher fenomenal, continua mais viva do que nunca. ALIVE !!!! Com esse número de Applause na cena do bar gay, me despeço. Espero que tenham gostado do post e mil desculpas pelo tamanho, mas fiz de coração, apenas um pequeno tributo de um grande fã de uma mulher excepcional. 



Beijos e stay tuned! ♥
Pedro