domingo, 29 de maio de 2016

7 filmes clássicos contra a cultura do estupro


Oi noviçxs,  no post de hoje eu vou falar um pouquinho sobre alguns filmes clássicos que são muito bons e mesmo décadas atrás, quando ainda era muito tabu tratar de temas mais ousados e polêmicos como o estupro e tudo mais, aproveitando o quanto o feminismo está em debate (e DEVE continuar assim), algumas obras trataram do assunto como mote principal de suas tramas, desde mais veladamente como de forma mais explícita. Como os filmes clássicos da Old Hollywood mesmo vão até mais ou menos os anos 60, que dali em diante as abordagem já seriam mais fáceis e abertas (como o estupro no filme oitentista Acusados, com Jodie Foster) sobre esse e muitos outros assuntos  na sociedade, mesmo nos anos 30 antes do Código Hays e principalmente nos anos 50 em diante, quando já começavam a ser abordadas temáticas como a juventude rebelde, o mundo do pós-guerra e críticas sociais pertinentes. Claro, há muitos filmes e eu não lembrei de todos, até peguei alguns que me sugeriram, e alguns que eu gosto muito e são pouco conhecidos, e quero aproveitar o espaço do blog justamente para semear um pouco do que eu conheço para o mundo. Claro, alguns filmes propõem um debate mais profundo sobre o tema, alguns apenas o abordam de relance e timidamente, mas de maneira geral é sempre interessante vermos o lado obscuro do ser humano  e da sociedade representado em um filme, ainda mais nos clássicos que quase sempre de ''inocentes'' não tem nada. Além de ser muito legal poder indicar alguns filmes bons para meus noviços assistirem.

Então vamos lá, em ordem cronológica:


CHANTAGEM E CONFISSÃO (Blackmail, 1929)





Blackmail já entra na história do cinema por ser o primeiro filme britânico (e de Hitchcock) com som! Mesmo no começo de cenas mudas, de repente os personagens começam a falar, além de nesse filme já termos o Hitchcock fazendo uma de suas ilustres aparições dentro do filme! 

Bem, o filme trata de uma filha de um lojista que namora um oficial da Scotland Yard. Mas, quando ela acha que o namorado está dando muita atenção ao trabalho e nenhuma para a relação deles, ela resolve secretamente se encontrar com um artista. Ele pede para pintá-la num quadro e ela, inocente, aceita. Mas o ''artista'' fica cada vez mais insolente e resolve levá-la à força para a cama. A moça entra em desespero e para se defender acaba o matando com uma faca. 



E será logo o seu namorado da polícia que irá até o apartamento investigar o caso, e acaba encontrando uma das luvas que a namorada estava usando na noite anterior. Ele resolve questionar a moça, e ao mesmo tempo, um homem que a viu saindo do apartamento na noite anterior e tem a outra luva que ela esqueceu, resolve chantageá-la. 

Esse é um dos melhores filmes do Hitchcock durante sua fase silenciosa, e já nele podemos ver muito do que o mestre do suspense viria a abordar na sua fase americana com seus filmes mais famosos. Aqui temos tentativa de estupro, assassinato, corrupção da polícia e dissimulação por amor e dinheiro,  e falando isso estou simplificando bastante. A bela atriz tcheca Anny Ondra (na foto com Hitch) no mesmo ano também participou do que seria o último filme mudo de Hitchcock: O Ilhéu (The Manxman).






LEVADA À FORÇA (The Story of Temple Drake, 1933)





Esse filme foi baseado num romance polêmico chamado Santuário, de William Faulkner, autor esse sempre com abordagens ousadas sobre o sul dos Estados Unidos. Estrelado por Miriam Hopkins, é um dos exemplos mais ousados do período anterior ao Código Hays que viria a censurar os filmes (por isso o nome ''pre code''). No filme, Miriam é a bela e mimada jovem sulista Temple Drake, que durante uma festa sai com seu pretendente de carro mas os dois acabam indo parar na casa de um contrabandista de bebidas cheia de tipos barra pesada, em especial o degenerado Trigger (Jack La Rue). Temple é presa em um celeiro protegido por um jovem deficiente, e durante a noite Trigger, bêbado, mata o garoto e estupra Temple numa sequência impactante e tenebrosa. 


Depois disso, Trigger a leva para um prostíbulo e faz dela sua marionete, e então mais tretas vão acontecer (não vou contar tudo), até o final durante o julgamento, onde Temple, mesmo sob risco de virar uma ''mulher marcada'', conta tudo o que lhe aconteceu. 

George Raft recusou o papel do estuprador porque imaginava que sua carreira iria acabar com um papel controverso como esse. Jack La Rue fez muito bem o papel, tem uma expressão super cínica e medonha.


Os temas abordados, como o estupro, os desvirtuamentos de valores éticos e a forma liberal de mostrar um mundo decadente e vil, levaram essa pequena obra-prima a ficar proibida e fora de circulação por muitos anos. Hoje já é reconhecido por muitos como um dos melhores exemplares da era Pre-Code, e talvez o melhor desempenho de Miriam Hopkins. Isso mesmo, aquela atriz famosa pela treta que teve com Bette Davis durante os filmes Eu Soube Amar (The Old Maid) e principalmente Uma Velha Amizade (Old Acquaintance), quando Davis numa cena chacoalha Miriam com força. Mas tretas a parte, Miriam é uma excelente atriz, subestimadíssima, além de muito bonita! 


O filme está no Youtube em várias partes e se você der uma boa fuçada, vai encontrá-lo para download.




Para quem se interessou , leia um pouco mais aqui no blog Crítica Retrô: http://criticaretro.blogspot.com.br/2015/04/levada-forca-story-of-temple-drake-1933.html 


BELINDA (Johnny Belinda, 1948)





Outro filme clássico que trataria de estupro seria o ''novelão'' Johnny Belinda, de 1948. Num vilarejo caiçara vive a jovem Belinda, vivida por Jane Wyman. Belinda é surda-muda, incompreendida por todos ao seu redor, mas encanta o médico Robert (Lew Ayres), que entende que Belinda é muito mais inteligente e capaz do que a população pensa. Mas numa noite, Belinda é estuprada por Locky (Stephem McNally) , um residente local. Belinda acaba ficando grávida de Locky, mas todos dacidade pensam que o filho é de Robert, que passou muito tempo com Belinda. A moça, sem poder falar, vive sem poder contar a ninguém o que lhe aconteceu. Ela dá à luz ao filho, Johnny, mas Locky faz a cabeça da cidade inteira ao tentar convence-los de que Belinda não é capaz de cuidar da criança, e quer ficar com o bebê a qualquer custo (sem admitir que é o pai). Obstinada a ficar com a criança, Belinda mata Locky durante uma briga, e acaba indo parar no tribunal.



O filme rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Jane Wyman, que deu o discurso mais curto da história na categoria: 

''Eu ganhei este prêmio mantendo a boca fechada e acho que vou fazê-lo novamente."


Com Loretta Young, vencedora anterior pelo filme Ambiciosa (The Farmer's Daughter)

O filme está disponível online e legendado no site Memocine (que é muito bom por sinal e tem um acervo maravilhoso, corram!)

ACUSADA! (The Accused, 1949)




Em um de seus melhores filmes, Loretta Young é uma professora de psicologia que acaba matando por acidente um de seus alunos quando este tenta estuprá-la no meio da estrada. 


Desesperada, ela faz parecer que o jovem morreu ao cair do penhasco, mas ainda assim acaba indo presa pela polícia. Enquanto aguarda o julgamento, para complicar mais, Loretta acaba se apaixonando por seu advogado (Robert Cummings), que por coincidência era o tutor do jovem morto. Ela tenta sustentar a sua versão do ocorrido mas, acusada de assassinato, fica cada vez mais difícil esconder o que realmente aconteceu. Lembrando do Blackmail e aqui, é interessante notar como elas apenas chegaram ao assassinato porque era a única forma de evitarem ser estupradas, e além disso elas ainda tem medo de contar a verdade pois a sociedade constantemente vê a mulher como ''culpada'', podem ficar ''mal faladas'' (sim, até hoje muita coisa não mudou em nada, tem muitos patrulhinhas da moral e dos bons costumes por aí) e ainda podem ser condenadas como assassinas frias, quando elas estavam só tentaram se defender. Mas é claro, as pessoas preferem julgar, tirar proveito e apontar o dedo.



O MUNDO É CULPADO (Outrage, 1950)




Em 1950, a atriz Ida Lupino se aventurou como roteirista e diretora do fiilme O Mundo é Culpado (Outrage). Esse filme B foi um dos primeiros filmes a tratar do estupro como tema central depois do Código censor de Produção em Hollywood há anos vigente pela ''decência'' vir a ruir. 

No longa, uma jovem mulher vivida por Mala Powers é estuprada numa noite que voltava do trabalho. A moça, chamada Ann, fica completamente traumatizada sem qualquer apoio da sociedade. 



Deslocada e em desespero por não conseguir voltar à sua vida normal, Ann foge do trabalho, da família e do seu noivo para bem longe e tenta reconstruir sua vida. Um jovem clérigo (Tod Andrews) ajuda Ann a conseguir trabalho e um lar, e por um tempo ela consegue viver em paz, mas quando um colega a corteja, Ann relembra do trauma que viveu e, desesperada, bate nele com força e acaba no tribunal. Seu amigo clérigo tenta, durante o julgamento, mostrar que Ann não tem culpa por tudo o que passou, e que como o título em português diz, a sociedade é a culpada. E Ann vê que não adianta fugir, e não poderá viver com o clérigo bonitão para sempre; ela terá que enfrentar o mundo.


O filme está disponível no Youtube (sem legendas), mas não é difícil de encontrar! E aproveito para indicar outros dois filmes ótimos da Ida Lupino, que além de ótima atriz é uma diretora muito boa! São O Mundo Odeia-Me (The Hitchhiker) e O Bígamo (The Bigamist), ambos de 1953 e disponíveis online e para download internet afora =))

 



UMA RUA CHAMADA PECADO (A Streetcar Named Desire, 1951)



Esse é de longe um dos melhores filmes de todos os tempos (no meu Top 10 disparado).  Poderia fazer um post inteiro sobre ele, mas vou tentar resumir. Baseado na peça de Tennessee Williams, o longa trata da bela sulista Blanche Dubois (fantástica Vivien Leigh) que viaja para a casa de sua irmã Stella (Kim Hunter) em Nova Orleans. Blanche revela que veio passar um tempo com a irmã porque perdeu a antiga propriedade da família. A tensão começa quando ela entra em confronto como o marido de Stella, o grosseirão Stanley (Marlon Brando inesquecível). Blanche ''não quer realismo'', ela quer magia! Ela esconde sua decadência com mentiras incontáveis e relembrando seu passado glorioso que já não existe mais. Blanche é o retrato de um ser delicado que o mundo real e cruel faz questão de destruir. A realidade está personificada em Stanley que é rude e animalesco, total antítese da beleza e glória que Blanche idealiza. 




O clima de tensão entre Blanche e Stanley cresce com o desenrolar do filme. Stanley fica cada vez mais rude com Blanche, e por um questão de orgulho e para mostrar que é ''quem realmente manda'' ali, ele quer que a cunhada desapareça, pois ela desestabiliza o local que ele antes dominava. Num confronto fatal entre os dois, com Blanche já tomada pela loucura, Stanley resolve abusar da cunhada, levando-a à força para a cama, e no texto original da peça ele ainda diz algo assim: ''Isso estava para acontecer desde o começo''. Depois do ocorrido, Blanche perde completamente o contato com a realidade. Stanley é o machismo puro que estupra não pelo sexo em si, mas para mostrar o seu poder, e destrói a sua vítima sem dó. Infelizmente, devido à forte censura vigente na época, muito da peça foi limitado (a cena do estupro por exemplo é apenas sugerida com a quebra de uma garrafa que Blanche usava para se defender partindo o espelho que reflete Blanche sem sentidos, e em seguida já de dia um plano de uma mangueira limpando a calçada da rua), mas Elia Kazan conseguiu fazer um filme poderoso e fiel ao texto de Williams.

Não vou falar porque perde a graça para quem não viu (aliás já soltei um spoiler enorme, grito). Então faça um favor para si mesmo e VEJA !!!! 



NA VORAGEM DE UMA PAIXÃO (The Unguarded Moment, 1956)




Esse thriller esquecido dos anos 50, além da temática, já é imperdível por dois motivos: Esther Williams reinando em um de seus poucos papéis fora da piscina. Sim, a sereia da MGM em um filme dramático não musical !! A prova viva de que ela se virava muito bem fora da água e dos números musicais. E outra: a história que baseou o filme foi escrita pela atriz Rosalind Russell ! Ou seja: WHO RUN THE WORLD ? GIRLS.


Esther interpreta Lois, uma professora de música que numa noite é violentada por um jovem dentro da escola (essa é especialmente para os que falam que ninguém é estuprada na escola etc). Na mesma cidade uma moça já havia sido morta misteriosamente perto da escola, e Lois vinha recebendo vários bilhetes obscenos e ameaçadores, então sabendo se tratar de um estudante resolveu ir até o seu encontro para tentar conversar, mas acabou atacada, e por sorte, consegue escapar e ir até a polícia. 


Apesar do ocorrido (o estupro não chega a acontecer ) Lois acredita que o rapaz é só um garoto problemático e ainda acredita que pode ajudá-lo. Depois Lois descobre que o rapaz é Leonard (John Saxon), um de seus alunos, mas ao contar sua versão para a diretoria, Leonard nega tudo, e Lois ainda tenta dialogar com o garoto, sem sucesso. 


Rumores correm de que Lois estaria seduzindo o rapaz, e os alunos passam a zombar dela e a diretoria pensa em afastá-la. O problema se torna maior quando Lois resolve falar com o pai do garoto, Mr. Bennett (Edward Andrews), um homem amargo que desconta todas suas frustrações no filho Leonard, que sofre pelas pressões do pai em fazer dele um garoto prodígio. Mesmo sabendo que o filho faz coisas erradas, o pai encobre tudo, e se o filho não for o garoto exemplar que ele o pressiona ser, ele vai destruí-lo.


Tendo o equilíbrio delicado da sua reputação em risco, o pai do garoto resolve fazer de tudo para colocar a sociedade contra Lois, dizendo que ela é uma mulher depravada que seduziu seu filho. E ela com a ajuda do tenente Harry (George Nader) tentará provar sua versão e conseguir fazer Leonard tomar consciência de seus atos e se livrar da figura repressora do pai austero. 


Leonard hesita e pensa em contar a verdade, mas o senhor Bennett quer tirar Lois de seu caminho custe o que custar, e se mostra um homem cada vez mais machista, perigoso e doentio. Não vou mais contar nada, risos, ASSISTAM ! O filme poderia ter ousado mais em alguns pontos e ficado menos no romance meloso (apesar de eu shippar) da Esther com o policial, mas em geral é um filme que merece mais reconhecimento! 



A CALDEIRA DO DIABO (Peyton Place, 1957)



E por fim, esse filme controverso que é A Caldeira do Diabo (o nome já é bem sugestivo). Antes de produções como Twin Peaks temos aqui uma pacata cidade da Nova Inglaterra, chamada Peyton Place, onde nada nem ninguém é o que aparenta. O filme fez escola sobre melodramas hollywoodianos ao mostrar a hipocrisia reinante em uma pequena cidade do interior (que poderia ser em qualquer lugar do mundo) cheia de igrejas, fofocas e pessoas pseudo-moralistas que escondem segredos como adultério, suicídio e estupro. Os habitantes da cidade ''perfeita'' são cheios de si e tentam passar uma imagem falsa para esconder seus segredos obscuros. Os pais, cheios de moralismo, repreendem os filhos por agirem do mesmo jeito que eles agiam no passado e agora tentam esconder sob fachada de famílias perfeitas. A estrela do filme é Lana Turner, rainha de melodramas como o Imitação da Vida e que viveria um drama na vida real pouco tempo depois quando sua filha assassinou o gângster Johnny Stompanato, amante de Lana na época que a ameaçava de morte. No filme Lana é uma mãe viúva, vista como ''respeitável'' por todos, mas esconde coisas sobre seu passado, e um dia acaba revelando tudo para sua filha que é alvo das fofocas da cidade. Sua filha acaba fugindo de casa, mas acaba voltando tempos depois para acertar as contas com a mãe e a cidade.

O ápice do filme é quando uma jovem, amiga da filha de Lana, vai ao tribunal depois de confessar um crime. A pressão é enorme, e ela confessa que havia sido estuprada pelo padrasto abusivo e alcoólatra. Com o julgamento e a verdade vindo à tona ao longo do filme, as máscaras de todos da cidade vão caindo. 


Não vou contar mais porque são duas horas e meia de tretas sem fim. O best seller que baseou o livro vendeu quarenta mil exemplares em apenas dez dias! Ou seja, faça como a Cher e deleite-se com as intrigas de Peyton Place! 

O filme está disponível em DVD pela Fox, na internet e volta e meia passa no Telecine Cult. 

And that's all folks! A luta contra a cultura estupro continua, e vendo esses filmes a gente percebe como, apesar de muitos avanços, ainda há muito o que mudar na mentalidade das pessoas ( muitos moralistinhas de hoje parecem saídos dos anos 50 para baixo) e como o machismo e a hipocrisia ainda imperam no mundo em que vivemos. Muita gente já escreveu coisa bem melhor do que eu nos últimos dias sobre o assunto, então eu fico aqui com a recomendação dos filmes e que tenha ficado dado o recado de que estupro não é legal e que a sociedade lute contra os agressores, e não contra a vítima. E que o debate que está havendo continue e faça as pessoas mudarem sua forma de pensar. Eu realmente espero que tragédias e mortes não tenham que acontecer para que as pessoas parem para pensar: que elas pensem agora, e poupem mais vítimas. Em suma: A CULPA NÃO É A DA MULHER, ELA SE VESTE COMO QUISER, ELA FAZ O QUE ELA QUISER E PONTO FINAL. Joan Crawford fechando com chave de ouro o meu post: 


Bye bye, people! Até a próxima ♥ Bons filmes e NÃO À CULTURA DO ESTUPRO! MACHISTAS NÃO PASSARÃO! xo


domingo, 22 de maio de 2016

Lembranças além do arco-íris




Vim rapidinho só para compartilhar uma coisa que me deixou em pedaços. Estava eu no Twitter e postaram uma foto da última casa onde Judy Garland viveu. Fica no número 4 de Cadogan Lane, em Belgrávria SW1, Londres. A casa infelizmente foi demolida, e isso foi o que restou. Olhem as lindas homenagens na madeira :')






O endereço foi seu último lar, junto ao seu último marido, Mickey Deans. Eles se casaram em março de 1969 em Londres. Judy então fez no fim do mês seu último show, em Copenhage. O casal viveria apenas alguns meses juntos, e seria Deans que encontraria Judy já sem vida no banheiro, após uma overdose acidental de barbitúricos. 






A vida de Judy Garland foi marcada por altos e baixos. Começou a carreira muito jovem, e viveu complexada pelos executivos do cinema a acharem feia e gorda (!), e junto com as longas jornadas de trabalho ela acabou dependente de medicamentos, vício que a acompanhou durante toda a vida. Ah Dorothy, quantas Bruxas Más do Oeste não encontrou durante sua vida, e quantas ainda assolam o mundo...

ESSE BEBÊ É FEIO ONDE, PELO AMOR DE DEUS ??? Uma bonequinha, isso sim <3


Da carreira inicial da Judy, eu gosto muito dos filmes com o Mickey Rooney (apesar de serem quase todos iguais, eles sempre querem fazer um show na Broadway risos). O meu favorito é o fofo Sangue de Artista (Babes in Arms). Me dá nostalgia... uns filmes inocentes com músicas legais e atores tão carismáticos.



Já adulta, uma tumultuada vida pessoal, casamentos difíceis, uma verdadeira montanha russa tanto no trabalho quanto na vida, mas sempre cheia de vida agraciando as telas e o mundo com seu talento. Seu último filme, Na Glória a Amargura (I Could Go On Singing), mesmo que não autobiográfico propriamente, mostra uma Judy mais real e logo a vida tumultuada de uma cantora que tenta conciliar o trabalho com a vida pessoal ( o filme está em DVD e também disponível no Youtube, também conta com Dirk Bogarde no elenco). O canto de cisne emociona, e muito. Há uma parte que ela chega atrasada no show, brinca, faz piada, a plateia está azeda, e ali na frente de uma multidão, tão humana na sua fragilidade, e aquela mesma pequena grande mulher quando solta sua voz encanta a todos, ilumina aquele enorme palco solitário e mostra a verdadeira magia do show business. Uma artista completa que continua encantando novas gerações de fãs, com um legado (e um coração) de ouro. As cortinas vermelhas se fechariam, mas ela continua a cantar, para sempre.



Judy sempre é lembrada pelos musicais, como O Mágico de Oz, mas também soube mostrar que era uma ótima atriz e podia fazer dramas tão bem quanto os filmes musicais. No mesmo ano ela fez um drama muito bom com Burt Lancaster, numa produção de Stanley Kramer, dirigido por John Cassavetes, chamado Minha Esperança é Você. Um filme sensível sobre uma escola de crianças especiais, onde Judy, uma professora de música, se encanta com uma criança autista nunca visitada pelos pais, e entra em confronto com os métodos da escola e o preconceito da sociedade contra os deficientes. 



Para não esquecer também sua notável participação, junto a um elenco de peso, no filme Julgamento em Nuremberg, baseado em fatos reais sobre o julgamento de criminosos nazistas após a Segunda Guerra. A busca pela verdade quando muitos já queriam esquecer.


E em um dos meus preferidos da era de ouro é O Ponteiro da Saudade (The Clock) de 1945. Um filme muito sensível sobre um soldado (Robert Walker, de Pacto Sinistro) que aproveita dois dias livre em Nova York e acaba encontrando Judy no meio do caminho, os dois se apaixonam e vivem diversas aventuras pela cidade, e como ele tem que partir de volta para o exército, eles tem que correr contra o tempo para conseguir se casar. É um filme muito bonito e singelo que merece ser mais lembrado. 




Vincente Minnelli havia dirigido o filme, e também dirigiu Judy em O Pirata (sempre bom quando ela se junta com Gene Kelly, e os beijos técnicos super de língua Lol) e em Agora Seremos Felizes, um dos filmes que Judy está mais radiante, dizem que de amor por Vincente, já que os dois se apaixonaram durante as filmagens e da relação nasceria a filha, Liza Minnelli. Como não amar The Trolley Song (só pra citar uma) ? 

PS: nunca vou perdoar a Sarah Jessica Parker por desligar a televisão que passava Agora Seremos Felizes logo nessa cena, numa parte do filme de Sex and the City. E ainda para ficar pensando em homem? Me poupe, Carrie. 



Parênteses: a pequena Liza depois faria uma pequena participação, ainda criança, no musical A Noiva Desconhecida (In the Good Old Summertime) estrelado pela mãe junto com Van Johnson. :)



Nos anos 50, Judy fez um retorno triunfal para as telas, após um período turbulento fora das telas, com Nasce uma Estrela. Apesar de pessoalmente preferir a versão original com Janet Gaynor (que passava bastante no canal Futura), Judy Garland é a verdadeira estrela do show, canta, dança, atua e faz ainda mais um pouco nesse que é um dos melhores exemplos de musicais da antiga Hollywood. O Oscar, entretanto, preferiu dar o prêmio de Melhor Atriz para Grace Kelly, que também não estava nada mal num papel ''gente como a gente'' no drama Amar é Sofrer (The Country Girl). Até hoje a premiação é contestada entre os fãs, mas a performance de Judy permanece marcante e inesquecível. 

Entre problemas de saúde, relacionamentos, ausências, e suspensões do estúdio, ficou de fora de filmes como Bonita e Valente (substituída por Betty Hutton), Ciúme Sinal de Amor (por Ginger Rogers) e de O Vale das Bonecas nos anos 60 quando foi demitida e substituída por Susan Hayward; e teve uma breve mas não menos importante carreira na tv com o The Judy Garland Show, com diversas performances musicais inesquecíveis, além do humor único de Judy.



Entretanto, em 1961 sua performance no Carnegie Hall, uma espécie de retorno triunfal, foi considerada ''a maior noite do show business''. E não pararia por aí, fazendo turnê e até shows com as filhas Liza e Lorna Luft. 

Outro parênteses: Judy também dublaria A Gata dos Meus Sonhos, em inglês Gay Purr-ee, uma animação adorável sobre uma gatinha da fazenda que sonha com o glamour de Paris mas quando chega lá acaba em grandes apuros, e só o gato do campo que ela desprezava poderá lhe salvar. Preciso nem dizer que os dois caem de amores um pelo outro.


Enfim, aproveitei o gancho para dar uma pequena navegada pela carreira dessa atriz que eu tanto amo, mas ainda preciso me aprofundar muito mais na sua biografia e carreira (preciso ler alguma biografia) para discorrer mais sobre ela, o que eu deixo para uma próxima. Fica minha tristeza por ver a casa onde viveu e morreu um ídolo ser assim demolida. 


Vários fãs foram até sua casa, sentiram a energia de estar no mesmo cômodo que a deusa esteve. O post it da foto acima foi colocado por um fã, e mesmo meses depois, continuou lá, intacto (!). Não importa quanto o tempo passe, a emoção sempre fica, e o brilho da estrela continua iluminando nossa vida. Que ela tenha encontrado a paz que não encontrou em vida, sem nunca deixar de lado o grande e poderoso amor que moveu sua vida e a mantem eterna nos nossos corações. Como alguém disse no seu velório, ''ela se consumiu''. 


E o que fica disso tudo? Sei lá. Mais um capítulo de como a vida é uma merda, as pessoas legais morrem cedo enquanto os merdas fazem hora na Terra, e lembro das palavras de uma moça que comentou lá na página do Face, que tanto como historiadora e como fã se entristeceu em ver um prédio praticamente histórico ir assim abaixo, tão odioso pode ser o crescimento frenético dos centros urbanos, o homem que passa por cima de tudo sem dó, e mais uma parte de todo um passado desaparecendo para sempre, mesmo que só fisicamente, nunca da mente ou do coração. As pessoas são um lixo. Mas sim, claro, a vida vale a pena ser vivida, e ao máximo. Poderia fazer uma reflexão filosófica, mas depois desse mood deprê que eu deixei, acho que o número de Casa Comida e Carinho (Summer Stock, 1950) fala mais do que eu poderia dizer. Do céu da Golden Age, it's Judy fucking Garland <3

FORGET YOUR TROUBLES, C'MON GET HAPPY!! 




Descanse em paz, querida Judy. Ficam aqui algumas lembranças de Além do Arco-Íris ♥